Sobre Anna P., o amor e outras brutalidades


Anna P. estreou enquanto personagem-autora em 2014, ano de lançamento de Tudo o que eu pensei mas não falei na noite passada. O próprio título é sugestivo e conduz o fio temático da obra, cujos textos em primeira pessoa versam principalmente sobre a sexualidade feminina e o ato sexual do ponto de vista da mulher. Anna P. integra-se enquanto sujeito enquanto materializa em palavra literária o que o patriarcado cultural silenciou: o direito ao desejo (diante de uma sociedade falocêntrica que entende como hiper-erotizada a mulher que demonstra o desejo sexual), à vivência plena de sua sexualidade, ... Leia mais

«E o corvo disse: 'Nunca mais!'»


A importância de Edgar Allan Poe para a ficção como a conhecemos é imensa. Poe foi um dos primeiros escritores americanos de contos e a ele é atribuído a invenção do gênero ficção policial. Além disso, ele contribuiu enormemente ao emergente gênero de ficção científica da época. Seu trabalho foi posteriormente inspiração para outros grandes escritores, como Arthur Conan Doyle e Jules Verne. Entre seus admiradores brasileiros estão Machado de Assis e Augusto dos Anjos.

De estilo aventureiro e boêmio, sua vida pessoal sempre foi marcada pela incapacidade de seguir regras e c... Leia mais

Editorial · Minha opinião sobre «A mulher que virou tatu»


As narrativas indígenas da Coleção Mundo Indígena me encantam, principalmente, pelo impulso natural de linguagem. As formas simples de escrita e linguagem — simples, mas grandiosas — me encantam. Nos livros, existe uma fluidez imensa que torna a leitura agradável, divertida e emocionante.

Um dos meus livros favoritos, dos sete que reúne, é A mulher que virou tatu. A história, singela, me surpreendeu, principalmente, na descrição lenta e ao mesmo tempo concisa de como um ser humano se transformou em animal. No caso, como dado no título, um tatu: bicho com hábito de mor... Leia mais

A vida, mesmo amarga, é sorte e privilégio

Cena de Um Violinista no Telhado (1971), dirigido por Norman Jewison.

Friedrich Gorenstein foi, além de autor de Salmo — romance-meditação sobre os quatro flagelos do senhor, roteirista de Andrei Tarkovski, assinando os roteiros dos filmes Solaris e Andrei Rublióv. Judeu russo nascido em Kíev, ativo na discussão sobre o antissemitismo na Rússia, construiu em Salmo (1975) uma das tramas mais complexas e originais sobre a questão judaica (entre outros assuntos),... Leia mais

Como a vida erótica é investida pelo ódio e pela angústia?

Cena de Petra von Kant (1972), dirigido por Rainer Werner Fassbinder.

Recentemente, a Justiça Federal aprovou parcialmente uma liminar que permite que psicólogos conduzam tratamentos de reversão/reorientação sexual — por mais que o CFP, Conselho Federal de Psicologia, pressione para que o processo não siga adiante. O documento reitera que a homossexualidade não deve ser considerada uma doença, mas entende que ela pode ser reversível, ou readequada. Os indivíduos que não se sentem à vontade com a ... Leia mais

Mural de vídeos: «Refugiados de Idomeni»


«A vida em Idomeni era muito ruim, na verdade, não era vida. […] Não havia acomodação, a comida era muito ruim. Não havia vida.»

O pequeno vilarejo de Idomeni, localizado na fronteira da Grécia com a Macedônia, era uma comunidade de aproximadamente 150 moradores, que viviam basicamente da agricultura. No entanto, com a guerra civil síria e outros conflitos globais, o local virou um ponto crucial na rota de fuga dos refugiados para a Europa. Assim, Idomeni passou do anonimato para alvo da imprensa internacional, especialmente após o fechamento das fronteiras aos então transeúntes, o que o tornou um do... Leia mais

«Anarco. Gay. Um hino à matéria.»


Hubert Fichte foi um autor de interesses bem variados, que giravam sobretudo em torno de sua própria situação e de suas obsessões – tendo crescido como meio-judeu, homem gay na Alemanha pós-fascista, ele amava as culturas africanas e afrodiaspóricas, e via ainda assim a impossibilidade de superar as limitações da colonialidade, das formas de conhecimento estabelecidas da antropologia e da etnologia e da política supostamente antirracista. Fichte se interessava pela resistência sem violência, pela luta política e pelo turismo, sobretudo o turismo sexual.

O seu Explosão é o volume VII de A história da s... Leia mais

Crack para além do senso comum


Errantes entre os horrores persecutórios da noia, homens e mulheres, menores e maiores de idade, entregam-se pelos mais variados motivos à experiência do crack, nas ruas dos principais centros urbanos brasileiros, no quarto dos fundos depois da rotina de trabalho ou estudo, no meio da mata ou esquinas dos recantos interioranos, em ambientes confortáveis criados para o consumo, dos becos abarrotados aos cômodos vazios de grandes mansões.

A mídia e o senso comum, longe de auxiliarem no combate ao crack, pesam ainda mais sobre as vidas de mais de 350 mil pessoas só no estado de São Paulo. Via de regra,... Leia mais

Até que grau a vida precisa da história?

Por André Itaparica, tradutor.


Para que História? Essa é a pergunta que o então jovem professor de filologia da Universidade da Basileia, Friedrich Nietzsche, procura responder em seu terceiro livro publicado, Sobre a utilidade e a desvantagem da história para vida (1874), importante obra que ganha agora uma nova tradução, direto do alemão, com introdução e notas.

Refletindo sobre o caráter fortemente historiográfico das ciências humanas de sua época, Nietzsche acaba por escrever um profundo ensaio sobre a necessidade que o homem possui de ... Leia mais

Você já ouviu falar de Gilka Machado?


Quantos nomes femininos são colocados em destaque na literatura brasileira? Clarice Lispector, Cecília Meireles, Cora Coralina, Hilda Hilst, Rachel de Queiroz e Lygia Fagundes Teles tiveram devido reconhecimento, mas existe ainda um leque amplo de outras mulheres extraordinárias cujas obras permaneceram obscuras — seja pela época em que despontaram (os exemplos aqui citados são, afora Cecília Meireles, escritoras da segunda metade do século XX), seja pelo assunto do qual falavam em suas produções. No caso de Gilka Machado, o problema foi duplo.

Gilka nasceu em 1893 na periferia do Rio de... Leia mais