Você já ouviu falar de Gilka Machado?


Quantos nomes femininos são colocados em destaque na literatura brasileira? Clarice Lispector, Cecília Meireles, Cora Coralina, Hilda Hilst, Rachel de Queiroz e Lygia Fagundes Teles tiveram devido reconhecimento, mas existe ainda um leque amplo de outras mulheres extraordinárias cujas obras permaneceram obscuras — seja pela época em que despontaram (os exemplos aqui citados são, afora Cecília Meireles, escritoras da segunda metade do século XX), seja pelo assunto do qual falavam em suas produções. No caso de Gilka Machado, o problema foi duplo.

Gilka nasceu em 1893 na periferia do Rio de Janeiro, em uma família que, apesar de ter poucos recursos, já tinha gerado poetas e músicos famosos da época. Começou sua produção literária ainda muito jovem, escrevendo poemas para participar de concursos. Ganhou seu primeiro prêmio aos 13 anos, quando arrebatou, como se não bastasse apenas um, os três primeiros lugares.

A controversa autora foi a primeira mulher a publicar poesia erótica no Brasil e uma das únicas representantes do Simbolismo. Sua escrita era um ato revolucionário, uma vez que, à época, não era aceitável uma mulher expor suas impressões e desejos mais íntimos, ainda mais em instância sexual.

Como reconhecimento ao seu talento e sensibilidade, foi-lhe oferecida a posição de primeira mulher a fazer parte da Academia Brasileira de Letras, convite este que ela fez questão de recusar. No entanto, recebeu, em 1979, o prêmio Machado de Assis pela publicação de suas Poesias Completas.

Gilka sempre prezou por sua independência e cultivou uma força vital que era demonstrada dentro e fora de sua poesia. Quando Olavo Bilac se ofereceu para escrever o prefácio de seu primeiro livro, Cristais partidos, ela recusou, dizendo:


Eu quero aparecer sem defesa nenhuma, sem escudo, e, com um prefácio seu, todo mundo já está me achando ótima.


Sua representação como mulher ultrapassou também os limites da literatura e adentrou a política. Foi militante ativa dos direitos das mulheres, sobretudo em relação ao direito ao voto feminino; fundou, juntamente com Bertha Lutz, o primeiro partido político para mulheres.

A influência (e personalidade) avassaladora de Gilka, ainda que velada ao grande público durante tempos, é hoje trazida à tona com a reunião completa de sua obra. Gilka foi uma das mais inspiradoras ativistas do feminismo no Brasil, além de corajosa escritora. E a melhor forma de reconhecê-la e evidenciá-la como a grande poetisa que foi, ainda que atrasados, é "permitir que todos conheçam sua obra", como diz a organizadora do livro Jamyle Rkain em sua Apresentação de Gilka Machado: Poesia completa — produto de uma parceria entre o selo independente Demônio Negro e o EdLab, nosso laboratório de produções editorais, já disponível para venda em nosso site.

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