Sobre Anna P., o amor e outras brutalidades


Anna P. estreou enquanto personagem-autora em 2014, ano de lançamento de Tudo o que eu pensei mas não falei na noite passada. O próprio título é sugestivo e conduz o fio temático da obra, cujos textos em primeira pessoa versam principalmente sobre a sexualidade feminina e o ato sexual do ponto de vista da mulher. Anna P. integra-se enquanto sujeito enquanto materializa em palavra literária o que o patriarcado cultural silenciou: o direito ao desejo (diante de uma sociedade falocêntrica que entende como hiper-erotizada a mulher que demonstra o desejo sexual), à vivência plena de sua sexualidade, o reconhecimento da própria autonomia e até de sua intelectualidade. A experiência libertária de Anna se divide em três eixos: "A conquista de si", parte primeira da obra, que concentra os contos e aforismos eróticos; "O percurso", que dá voz às referências afetivas primeiras de Anna por meio dos diálogos com a mãe e as cartas assinadas pelo pai, pelo irmão e pelo ex-marido, de onde pode-se depreender o âmago das relações patriarcais inseridas no contexto familiar; e finalmente "O eu no mundo", um apanhado de aforismos dos mais variados tipos sociais (e especialmente os ditos intelectuais/libertários) reverberando essas mesmas noções patriarcais em suas falas.


"Tanta gente me chama

de musa

de deusa

de fusa

Mas não me ama"

(Do amor e outras brutalidades, p. 47)


Em Do amor e outras brutalidades, os papeis sociais estabelecidos e arraigados durante 5 mil anos de patriarcado continuam como pano de fundo - e esse eixo é tão nítido que os dois livros podem ser lidos como dípticos, como sugere o professor Silvio Rosa Filho no Posfácio que compõe a obra: "Em pinceladas vigorosas, esse díptico funde mosaico erótico, cio de animais em sua humana animalidade, emboscadas da luta de classes". A Anna P. que estreou rompendo o silenciamento da identidade feminina sobretudo por meio da autoafirmação da mulher enquanto ser sexual ativo, e por isso mesmo fazendo uso intenso da descrição erótica, continua diante dos mesmos desafios, somados a uma novidade: a vivência da maternidade dentro dessa sociedade patriarcal. Entre aforismos, poemas, prosas curtas, transcrições-transcriações de mensagens de texto com Beltrano (com quem teve o filho, Quim) e diálogos entre mãe escritora e filho descobrindo a linguagem, Anna P. propõe uma prosa contemporânea autoficcional que, enquanto narra a si mesma e dá voz ao sujeito feminino - seu trabalho, seus desejos, seu cansaço, suas desilusões -, traz as denúncias implícitas das disparidades entre os papeis sociais homem-mulher.

"Eu tô tendo noites horríveis desde que o Quim nasceu e pouquíssima solidariedade sua Porque no fundo você acha que a responsabilidade de cuidar da cria é só minha"

(Do amor e outras brutalidades, p. 38-39)


A temática amorosa aqui emerge via mergulhos e submersões, em descrições líquidas e personagens náufragas, quiçá um afogamento sentimental oriundo de uma impossibilidade de parceria plena, intercaladas aos diálogos com o filho, com quem em conjunto ela desbrava a linguagem (por meio do ofício literário e materno) e o próprio sentimento do amor.


"- Ai, mamãe, você me machucou! - Desculpa, eu puxei com muita força, né? Às vezes eu esqueço que sou forte... - É, você esquece todo dia!"

(Do amor e outras brutalidades, p. 85)


Do amor e outras brutalidades será lançado amanhã, 17/11, às 20h. O evento acontece apenas para convidadas e convidados da autora, mas será transmitido ao vivo e na íntegra nas páginas do Facebook e Instagram (@editorahedra) da Editora Hedra. Anna P. é um pseudônimo, nome de uma personagem-escrevente e mantém a identidade em anonimato. O evento é restrito para que seja preservada a identidade da autora (tal qual a célebre Anna O.): em um mundo em que as mulheres são malvistas, Anna P. permanecerá fora das vistas.

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