Serguei Dovlátov, um autor «ideologicamente alheio»

O ofício, lançamento de março da Kalinka em parceria com a Hedra, Serguei Dovlátov (1941-1990) descreve com impagável (auto) ironia “as peripécias de seus manuscritos” — sua biografia literária — em dois momentos da vida: na URSS e nos EUA, após ter emigrado (1978). Com uma forma concisa, fragmentada e metalinguística, O ofício, como acontece na maior parte das obras de Dovlátov, é conduzido por uma narração em primeira pessoa, em que realidade e fantasia são continuamente confundidas, criando um universo artístico único.

Confira uma breve entrevista com Yulia Mikaelyan, que traduziu, junto com Daniela Mountian, a obra de Dovlátov diretamente do russo:


1) Serguei Dovlátov (1941-1990) é um dos maiores escritores russos contemporâneos, mas seu primeiro livro só foi publicado no Brasil em 2016, em tradução sua (Parque Cultural, Zapoviédnik, Editora Kalinka, 2016). E, este ano, lançamos O Ofício (Remesló). Qual a importância dessas publicações para os brasileiros? Dovlátov é muito lido na Rússia?

Sim, Dovlátov é muito popular entre os leitores (atualmente ele é um dos escritores mais lidos na Rússia), portanto me parece muito importante e muito bom que o leitor brasileiro tenha agora a oportunidade de conhecer sua obra. Dovlátov realmente é uma das figuras mais significativas da prosa curta russa do fim do século XX, na qual muito se inspiram a literatura e a cultura russa de hoje. Muitas de suas frases, piadas, tornaram-se parte do folclore moderno (às vezes, as pessoas usam expressões que saíram dos livros de Dovlátov sem nem se darem conta). É curioso que, desde que sua obra chegou à Rússia, no começo dos anos 90 (infelizmente, o próprio Dovlátov não chegou a presenciar esse momento), o interesse por ela não diminuiu. Isso faz mais de 25 anos. Seus livros são vendidos em grandes tiragens, saem novas pesquisas acadêmicas, diretores de teatro inspiram espetáculos em sua obra e em sua biografia. Foram feitas várias montagens de seus textos (por exemplo, há pouco tempo, em janeiro deste ano, assisti a uma nova montagem de Parque Cultural, feita pelo teatro moscovita Stúdia Teatrálnogo Iskússtva (“Estúdio da Arte Teatral”)). O mesmo acontece com o cinema: há filmes dedicados tanto à obra como à vida de Dovlátov. Em março deste ano vai estrear na Rússia o filme Dovlátov, do diretor Aleksei Guérman Jr. Pode-se dizer que tanto a obra como a própria figura do escritor são parte importante da cultura russa contemporânea.


2) O tom cômico, despojado e irônico, em Dovlátov, torna suas observações mais simples (ou mais complexas, a depender do ângulo) espirituosas. Ele atinge camadas de discurso que a seriedade não é capaz de alcançar. Com qual outro escritor contemporâneo você o relacionaria?

 

Me parece que, para muitos escritores (tanto oficiais como não oficiais), o humor era um meio de afrontar a realidade soviética, com suas regras às vezes absurdas e, de forma geral, um meio de superar o lado trágico da vida. Entre eles, claro, Dovlátov atingiu altíssimo nível, maestria. Quanto a outros escritores não oficiais contemporâneos de Dovlátov, eu gosto muito de Víktor Goliávkin (1929 - 2001), que é muito menos conhecido do que o Dovlátov (tanto na Rússia como fora), mas a sua maneira de enxergar o mundo, a meu ver, tem algo em comum com a de Dovlátov.


3) O ofício é dividido em duas partes: "O livro invisível", que se passa na União Soviética, e "O jornal invisível", após a emigração do autor-narrador para os Estados Unidos, em 1978. Cada parte aborda uma questão -- o livro a ser submetido em meio à burocracia de Leningrado no início da carreira de escritor e o jornal-semanário que monta junto com outros jornalistas emigrados soviéticos. Por que o uso da palavra "invisível"?

Quanto à primeira parte do livro, aqui o uso do adjetivo “invisível” me parece bastante evidente: o livro, assim como toda a obra de Dovlátov na União Soviética, era invisível para a cultura oficial; como um representante da literatura não oficial, o escritor não existia para o Estado. Dovlátov, assim como outros escritores que não se alinhavam à ideologia e à estética reinante, não conseguia publicar (e, como consequência, não podia ser aceito pela União dos Escritores, ou seja, não era considerado escritor pelos órgãos oficiais), e o número de seus leitores era muito reduzido. Quanto ao jornal “invisível”, talvez aqui o autor se refira de novo à falta de acesso ao seu leitor principal: o leitor russo, que ficara na União Soviética, bem como à sua invisibilidade em relação ao público anglófono.


4) Qual era a dificuldade do "ofício" da escrita na União Soviética do iniciante Dovlátov? E qual a relação de O ofício com os outros livros do autor?

Como dito, na União Soviética Dovlátov não conseguia (nem queria) se alinhar à ideologia que reinava na literatura da época, o que tornava impossível sua carreira de escritor. Tanto nos textos literários como em seus artigos e entrevistas, o escritor fala da impossibilidade de ser publicado em casa por ser “um autor ideologicamente alheio”, das várias tentativas de levar seus textos a editoras e revistas literárias e de sua frustração ao ser rejeitado. Como ele mesmo sublinhou, foi a impossibilidade de se realizar profissionalmente que o fez emigrar. Uma das marcas da obra de Dovlátov é seu pseudobiografismo: em sua obra, ele cria ficção partindo da própria biografia. Os textos do escritor, na maioria, são dedicados aos diferentes períodos de sua vida. O ofício é dedicado ao início de sua vida literária, sendo parte da “epopeia” do seu herói autobiográfico. (Parque cultural já discorre sobre outro período, pouco antes de emigrar.) Portanto, no texto ele recria peripécias da própria vida. Embora o livro seja ficcional, alguns episódios de fato aconteceram na vida de Serguéi Dovlátov . Assim, por exemplo,ocorreu o sarau no qual jovens escritores de Leningrado, entre eles, Dovlátov e Brodsky, leram seus textos e que depois provocou um escândalo, assim como a busca na casa de um de seus conhecidos em Tállin, quando o KGB confiscou seu manuscrito, o que levou à destruição do primeiro livro do escritor, prestes a ser publicado. Quanto ao “Jornal invisível”, realmente houve concorrência por parte do jornal mais antigo da colônia russa em Nova Iorque, o Nova Palavra Russa (Nóvoie Rússkoie Slovo), e conflitos com seu editor-chefe, Andrei Sedykh.


5) O livro é todo recortado pelos "solos na Underwood", como se fossem pequenos livres-comentários do autor. E a edição original de "O ofício" reúne documentos e cartas, que atribuem verossimilhança à narrativa. Até onde vai a ficção em Dovlátov? Quão semelhantes à sua vida são as situações vividas por sua persona em O ofício?

“Solo na Underwood” é o título que o escritor deu a seus cadernos de anotações, que foram publicados. Neles Dovlátov anotava frases ou episódios curiosos que aconteceram com ele e com seus conhecidos. (A segunda parte dos cadernos de anotações, intitulada “Solo no IBM”, já é dedicada à vida de Dovlátov e à de seus amigos na emigração.) Como mencionei, toda a ficção de Dovlátov é baseada em fatos reais. O protagonista de seus livros, que várias vezes leva o nome do escritor, é fisicamente parecido com ele, e, entre os personagens de seus textos, é fácil reconhecer seus amigos, colegas e parentes, assim como alguns acontecimentos por que passou. Essa mistura de realidade e ficção frequentemente confunde o leitor, e às vezes traçar uma fronteira entre o que houve e o que não houve se torna uma tarefa bastante difícil. Com certeza, esse mistério, o mito em torno de sua personalidade, que Dovlátov conseguiu criar ainda em vida, contribuiu em grande medida para o interesse tão vivo pelo escritor e por sua obra, que podemos contemplar agora na Rússia e em outros países.

Compartilhe