Por que Baudelaire é moderno?

por Luis Dolhnikoff, editor.


Baudelaire é moderno. Mas por que, afinal, Baudelaire é moderno, se viveu há quase dois séculos? Em parte porque parte da modernidade já estava, então, do outro lado do Atlântico, ou seja, não na velha Europa, mas no, literalmente, Novo Mundo. Porém em meados do século XIX, no auge do imperialismo europeu, poucos tinham antenas afinadas o bastante para perceber isso. Um deles era Charles Baudelaire — que descobriu antes de seus pares continentais o mais moderno dos escritores ocidentais, o norte-americano Edgar Allan Poe, o inventor da literatura policial e da poesia construída — e não, como se queria até o Romantismo, inspirada.

Poe construiu, literal e deliberadamente, seu mais famoso poema, “O corvo”, de trás para frente, do fim ao começo, e a partir da escolha de um som temático, a letra ô fechada, que o levou ao estribilho “nevermore”. E expôs toda a construção do poema em seu igualmente famoso “A filosofia da composição”. A composição, a construção, não a antiga inspiração, e a mente, não as musas, passam a ser o método da criação poética. Que, aliás, passa a ter um método, ou mais de um, pois cada poeta moderno desenvolveria o seu — ou não faria poesia moderna. A começar de Baudelaire, um dos descobridores e dos primeiros tradutores de Poe na Europa, cuja obra estudaria, divulgaria e prefaciaria.

Mas Baudelaire também é moderno porque viveu na mais moderna cidade de sua época, Paris, que pôde então tomar conscientemente como tema de sua poesia. A urbe labiríntica e infinda e seus intermináveis passantes, a multidão e sua solidão compacta, o anonimato e a massa. E o poeta e sua voz silenciosos ou silenciados em meio a tudo isso. O poeta era a voz da tribo. A voz da cidade é um ruído e um rugido sem dono, de todos e de ninguém. O poeta, então, tem de trabalhar “com vistas ao futuro ou a jamais”, como diria outro poeta francês hipermoderno, e herdeiro direto e dileto de Baudelaire, Mallarmé. Baudelaire, afinal, é moderno porque somos todos baudelairianos.

Compartilhe