Viajar é preciso

04/10/2021 23:15:06
Editora Hedra
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Por Sandra M. Stroparo. Excerto do prefácio de Viagem em volta do meu quarto.

Viagem em volta do meu quarto
Xavier de Maistre

O leitor pode não se convencer logo no início, mas a companhia do narrador não será das piores e para o nosso tempo, mais consciente das várias possibilidades de trips inventadas e provocadas por nós, considerar uma viagem puramente intelectual e especulativa não gera dificuldade. A metáfora que se cria, claro, é literária, ou, em alguns momentos mais inspirados, de discussão filosófica — especialmente se usamos o sentido largo que o século XVIII usou para a filosofia. Assim, nada mais peculiar ao século XVIII que uma obra que combina pretensões intelectuais e discussões sobre a natureza do homem e da sociedade sua contemporânea com o mais puro tom mundano do discurso de corte. Uma mostra divertida desse convívio é, por exemplo, a descrição de um sonho que afligiu o narrador, feita no capítulo XLII.

O segundo volume, a Expedição, no entanto, será mais introspectivo. Podemos nos perguntar: mais que uma obra escrita sobre o próprio quarto? E na expedição noturna há inclusive uma janela aberta, o olhar passeia pelas estrelas assim como pela sacada próxima onde está uma bela vizinha… Mas há mais exterior no cenário ao mesmo tempo em que desejos, alegrias e frustrações são tratados a partir sempre de uma crescente subjetividade. A linguagem é mais direta, a frase é menos sinuosa: o século XIX prefere sentenças menos tortuosa, e a individualidade passa a ser explorada. Dessas particularidades emerge finalmente um texto mais pessoal que o do primeiro volume e, condizendo com algumas das reflexões desenvolvidas, mais melancólico.

Detido em Turim, por ter participado de um duelo, Xavier de Maistre começa sua Viagem. Nesse primeiro volume a clausura é tratada ironicamente: criando seu narrador como um oficial na mesma situação — aprisionado em seu quarto —, Xavier de Maistre deixa correr a pena para situações prosaicas assim como para questões que ele chama de filosóficas, fazendo com que umas decorram das outras. Assim, para o narrador, os dias limitados pela prisão domiciliar são ocupados pelo ócio confortável e diletante, em que a viagem literária faz o papel de distração, mero passatempo intelectual. Esse pode ser o tom geral da narrativa, mas os assuntos em que ela se embrenha acabam por tocar em questões interessantes que, embora não sejam desenvolvidas seriamente, são suficientes para nos dar uma amostra dos seus interesses e, sem dúvida, dos interesses que tocavam seus contemporâneos — e os nossos, hoje.

E são assuntos variados. Fechado no quarto o narrador discute a possibilidade da própria obra, fazendo da metalinguagem a abertura do livro e a linha mestra que sustenta a voz narrativa na passagem de um capítulo a outro, em que os assuntos não necessariamente se seguem. E a retórica do texto busca em uma empática reflexão a aprovação e concordância do leitor, até que este esteja definitivamente fisgado. Já de imediato a ideia da viagem se impõe, sendo que o desafio é a descrição de quarenta e dois dias de descobertas feitas a partir de deambulações em volta do quarto.

Toda a força argumentativa do século XVIII se coloca aqui a serviço da literatura. Laurence Sterne é o principal parâmetro literário, assim como todos os escritos moralistas do período: fazer de qualquer tema, motivo, dúvida ou certeza uma razão para longas elucubrações é o método preferido da época, que vai do salão ao texto filosófico e às melhores páginas literárias. Para quem se lembrou de algo parecido, qualquer semelhança com as Memórias póstumas de Brás Cubas não é mera coincidência.

Os capítulos são curtos e os assuntos, vários. Rosine, a cachorrinha poodle do narrador, serve para uma explanação sobre o amor dos homens pelos animais, e vice-versa. O criado Joannetti é motivo para boas reflexões sobre as relações humanas, que não escondem muitas vezes a prepotência e a falta de modos do patrão. Quadros na parede permitem uma viagem pela memória e pelas histórias com as mulheres — motivo, aliás, constante, assim como é constante a menção à inconstância e volubilidade femininas.

Mas os conflitos internos humanos dão motivo para discussões divertidas que anunciam grandes questões da psicologia: a teoria da alma e da besta, uma versão com exemplos cômicos da suposta divisão entre corpo e alma, a hipótese da bipartição — sim, só bi, ainda estamos nos setecentos – inerente a todos nós domina vários capítulos da Viagem. Há também outros conflitos, mais seriamente tratados, como o papel que os amigos — sua cachorrinha e, quase, seu criado — cumprem em nossa vida e a falta que eles podem fazer, o vazio que eles podem deixar. No capítulo XXI da viagem, a morte de um verdadeiro amigo ganha a sua homenagem, como uma pausa respeitosa no meio do discurso. A melancolia, a tristeza talvez, desse capítulo só se compara àquelas presentes na Expedição.

O século das luzes abre então espaço para o sentimentalismo. Embora o amor por um discurso de argumentação, raciocínio, especulação sobre toda e qualquer ideia, fazendo desse processo um valor principal e a garantia de sustentação da obra não tenha se perdido entre a Viagem e a Expedição, o segundo volume se revela muito mais sentimental.

Escrita vários anos depois, a Expedição apresenta o mesmo narrador, mais velho, fazendo comentários à primeira viagem, já tão conhecida, e tentando repetir o modelo em uma viagem noturna. Uma noite só, outro tipo de desafio narrativo. Mas essa noite é quase tão longa quanto os outros quarenta e dois dias. E em alguns momentos mais séria, com toques melancólicos que beiram a solidez da tristeza no final do volume. A linguagem, como já foi dito, apresenta grandes mudanças. Mas os textos não são brutalmente diferentes: é como um antes e depois, como olhar para fotos de um amigo que conhecemos na juventude. Reconhecemos os traços, descobrimos a passagem do tempo. A passagem do tempo, o envelhecimento, a perda irremediável daqueles a quem amamos, a impossibilidade da felicidade e o ridículo da infelicidade fecham o volume dando ao narrador um tom mais sábio que aquele alcançado no primeiro volume. O capítulo XII exemplifica a inevitabilidade das tristezas e amarguras na vida do narrador. Mais sábio, menos esperançoso.

O início do século XIX, no entanto, não tira dessa voz o interesse pelo discurso fluente e pelos assuntos variados. Reflexões de caráter social e celeste (no sentido astronômico e não religioso do termo) podem levar, por exemplo, à elaboração de utopias de governo. Como a que decidiria que todos os cidadãos deveriam, obrigatoriamente, olhar para o céu: 

– Oh! Se fosse soberano de um país […], faria a cada noite soar o toque do sino e obrigaria meus súditos de todas as idades, de todos os sexos e todas as condições a se colocarem à janela para olhar as estrelas. 

O grau de devaneio presente na afirmação (e no restante da discussão sobre o assunto) não é muito distinto de sistemas inspiradores do socialismo utópico, como o de Fourier, o pensador francês que inventou os falanstérios como projeto de sociedade ideal. Tal fato denota acima de tudo uma atualidade de alcance muito interessante. E neste ponto é também possível enxergar uma proximidade com o pensamento romântico, tão dado à evasão quanto às idealizações, fossem elas sociais ou amorosas.

A vizinha que cantava no balcão abaixo do apartamento do narrador é outro exemplo, representando o ligeiro motivo lírico-amoroso da Expedição. Ouvindo um rápido trecho do seu canto o narrador se motiva a espiá-la e coloca-se então em circunstâncias periclitantes. Poderíamos perceber aqui uma ironia suave aos desvarios amorosos dos primeiros romances românticos provavelmente lidos pelo autor? Ou simplesmente percebemos na obra a atualização e a incorporação de um gosto da época? Se comparamos ao volume de 31 anos antes, há diferenças interessantes que podem ser registradas. Enquanto no primeiro volume a demorada toilette de uma dama é motivo para uma quase humilhação do narrador, que não suporta não ser o centro das atenções da sua dama, no segundo, o narrador se vê longamente admirando um chinelinho.

quarto é permissivo. Há estudos que aproximam e opõem a obra de Xavier de Maistre à Filosofia na alcova, de Sade, partindo da coincidência do confinamento como tema narrativo para os diferentes resultados alcançados pelos autores. O boudoir é comum ao mundo aristocrático a que ambos pertencem, o resultado materialista de Sade é diferente do de Xavier de Maistre, mas o princípio do prazer rege ambas as obras. Considere-se, como complicador, o capítulo XXXII da Viagem e a ironia posta sobre as violências e radicalidades revolucionárias. Finalmente, podemos ainda perceber nas obras de Xavier de Maistre um grande embate entre o conforto intelectual do confinamento e o desejo pelo mundo de fora, da atividade, da vida. A oposição clara entre o que se pensa sobre o mundo e como o mundo de fato se apresenta. Se há uma ironia reconhecível na descrição do trato amoroso, a própria especulação filosófico-humanista é também posta à prova: como racionalizar o sentimento? O amor, a perda ou a mera frustração? O formato escolhido para o texto, percebemos então, acaba se mostrando mais adequado ao índice de ironia da primeira parte do que a certas manifestações mais sensíveis que podemos encontrar na segunda. Mas mesmo esse detalhe é revelador da dificuldade imposta pela resposta dada à pergunta acima. O século XIX ainda levará algumas décadas para chegar ao seu melhor romance.

Mas Flaubert leu Xavier de Maistre e, sem levar em conta a presença da ironia na obra, põe Bouvard e Pécuchet para desprezá-lo. O problema aparentemente seria a presença excessiva da personalidade do autor. Claro que para o escritor de Madame Bovary o desaparecimento do autor, e mesmo do narrador, era uma questão crucial. Seguindo um outro ponto de vista, um crítico contemporâneo, Daniel Sangsue, já considerou a obra uma narrativa excêntrica que por suas qualidades particulares procuraria criticar e ironizar o gênero romanesco clássico, aquele onde tudo é grande: o sentimento, a nobreza dos personagens, a aventura. Seria uma composição caracterizada por digressões, uma hipertrofia do discurso narrativo e uma atrofia da história contada, um questionamento sobre as personagens, etc. A estética do detalhe, escolhida para as longas descrições do quarto e do mundo a partir do quarto, seria na verdade uma representação irônica, porque ela modifica as escalas de avaliação da nobreza das coisas e acabaria por alcançar a simpatia do leitor deslocando sua atenção para banalidades cotidianas como a cachorrinha Rosine ou o simples ato de acordar. Além do romance, a narrativa de viagens também tem aqui seus paradigmas questionados: o isolamento do quarto possibilita a minúcia atenta que se perde nas grandes distâncias e panoramas. A obra colocaria em discussão, portanto, metalinguisticamente, o próprio gênero a que pertenceria ou, no mínimo, de que fazia parte de forma tangencial.

Romance ou antirromance, narrativa excêntrica, narrativa de viagem ou narrativa heroica e cômica sobre viagem: essas são algumas das classificações levantadas pela crítica contemporânea. Mas talvez possamos realmente classificar Xavier de Maistre e sua obra na categoria de libre-pensée. Sem haver desenvolvido nenhuma doutrina específica, sem ter defendido nenhuma causa maior, ele acabou por criar uma obra que passeia por várias dessas possibilidades e que não abre mão de tratar delas, mesmo se às vezes levianamente, transformando os assuntos mais sérios em uma quase risada de salão. O discurso da individualidade realizada através da digressão pode talvez ser o principal definidor das duas obras, assim como a construção lenta da opinião pessoal, a permissão à perspectiva discordante, o desenvolvimento tolo e/ou perspicaz dos mesmos assuntos.

Ao leitor o aprofundamento e as escolhas. Mas sem esquecer que as viagens podem ser divertidas. Antes de considerá-las filosóficas, poderíamos chamar certas discussões propostas pelo livro de profundamente humanistas. Aí talvez um dos grandes interesses da obra e o cheiro de modernidade que ela oferece: não é difícil para nós, passados já alguns anos dos 2000, nos sentirmos tocados por ela e, em alguns momentos, de forma ora cômica, ora encabulada, nos identificarmos com esse narrador viajante.