Uma «Suma Sacerdotisa» nada casta

22/11/2021 15:23:08
Editora Hedra
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Por Mariana Lins, tradutora e organizadora de Sobre anarquismo, sexo e casamento.

Sobre anarquismo, sexo e casamento
Emma Goldman

Não é pouco significativo, como pode parecer à primeira vista, que no corpo de Emma Goldman, aquela que, em vida, foi nomeada pela imprensa liberal de Suma Sacerdotisa do Anarquismo, ardesse uma chama que em nada fez dela uma casta. Inclusive, o título da revista que fundou e editou de 1906 até a sua censura em 1917, a Mother Earth (Mãe Terra), parece uma pista de que o seu sacerdócio, se havia, sob alguma forma, ainda que laica e invariavelmente revolucionária, estava mais próximo ao paganismo com o seu culto à terra e à benção colocada sobre a sexualidade e fertilidade do que de qualquer outra espécie de sacerdócio mais afinado a religiões de tendência, por assim dizer, patriarcal. Vide, nesse sentido, a denúncia recorrente nos seus textos contra o puritanismo estadunidense e a sua origem inglesa e calvinista, que ganhou fama especial pelos sofisticados métodos aplicados para o martírio do corpo (caso das diversas engenhocas elaboradas para o fim da tortura) – e de cujos feitos históricos o mais famoso pelo paroxismo da sua histeria e crueldade é o popularmente conhecido como julgamento das bruxas de Salem. E Goldman, vale ainda mencionar, nesse mesmo sentido, era não só leitora contumaz de Nietzsche, o filósofo autodesignado discípulo do deus da terra e do vinho, Dionísio, como apropriou-se do seu pensamento de modo a constituir o seu. Conforme define, por exemplo em Minha nova desilusão com a Rússia (1934), revolução social é o mesmo que transvaloração fundamental dos valores – numa referência clara e direta (e sobretudo bastante própria) a Nietzsche.

Talvez porque a magnitude da chama que ardia nas veias dessa Suma Sacerdotisa tenha-se feito primavera em meio à chamada primeira revolução sexual e sob os ares do novo mundo (ela imigrou para os Estados Unidos aos 16 anos), o que escreveu sobre Mary Wollstonecraft, poderia ter dito sobre si mesma; bastando, para inclinar-se a tal suspeita, um simples relance sobre a sua biografia amorosa: Emma Goldman era sexualmente faminta. Teve uma vida sexual pujante e criativa (conforme atestam algumas das suas cartas avassaladoramente picantes), com diferentes amantes, permanecendo, inclusive, amiga de muitos deles por toda a vida, com destaque, sem sombra dúvida, para Alexander Berkman. Amava celebrar, a alegria, o cuidado, o prazer. É conhecida a anedota, em que ao ser repreendida por dançar (o que, como boa discípula do autodesignado discípulo de Dionísio, adorava), pelo motivo de que na condição de líder anarquista não deveria se permitir uma tal frivolidade supostamente capaz de manchar a reputação da causa; uma Goldman furiosa rebateu com a declaração de que o anarquismo, para ela, significava a concretização do o ideal da liberdade, do direito às coisas belas e radiantes e à autoexpressão plena da própria personalidade; apesar das prisões e perseguições políticas e de tudo o mais que há de cruel e terrível neste nosso mundo.

A vivência da própria sexualidade e da expressão livre do seu amor e alegria de viver estava de acordo com as suas concepções anarquistas. Daí que, segundo ela, o efeito mais pernicioso da repressão sofrida pelas mulheres ao longo dos milênios – mais pernicioso porque primeiro (no sentido de elementar, originário) –, residisse na repressão sexual. Para Goldman dentre todas as forças que atuam sobre nós, seres humanos vivos, o impulso sexual se não a única, é a mais importante. Conforme escreve no seu rascunho inacabado O elemento sexual da vida (1935), o sexo é a função biológica primária de toda forma de vida superior, de modo que a ele, devemos mais do que à poesia: do canto dos pássaros à música, da plumagem das aves à juba do leão; das formas superiores de vida do mundo vegetal e animal à própria cultura humana com seus costumes não raro tolos, insensatos e injustos; tudo isso, escreve Goldman, devemos debitar na conta do sexo. Amparada pelo discurso psicanalítico da época, ela irá compreender a sexualidade para além da busca pelo gozo propriamente dito, já que a fonte de toda socialização, amor e criatividade. O instinto sexual é o instinto criativo, postula; e é por expressar, em todo lugar e a cada instante, essa grande necessidade de união; que essa faculdade é social e o começo do panorama da arte.

Este é o fundamento do seu postulado ético acerca da necessidade de que o radical completo – já que, segundo faz questão de frisar, em mais de uma ocasião, há muitos radicais meia boca (o que faz lembrar o esquerdomacho atual) – aplique a sua radicalidade, antes de tudo, às suas relações sexuais e amorosas. Note-se que ela traz para o centro da pauta revolucionária a questão da sexualidade e do amor: o radical completo deve aplicar a adequação entre teoria e prática, em primeiro lugar, às suas relações mais íntimas. No que diz respeito às mulheres, ela parece sugerir que muito mais primordial do que buscar a igualdade para com o homem nas fileiras das universidades e postos de trabalhos qualificados, antes de tudo, é o caso de lutar para vivenciar, ainda que muitas vezes sob o custo de arrebentar-se, as próprias paixões e sexualidade. E sobre esse ponto, faz um uso interessante de Freud, quem, segundo ela, acreditava que a inferioridade intelectual de tantas mulheres está relacionada à inibição do pensamento imposta sobre elas com o fim da repressão sexual (A hipocrisia do puritanismo, 1910). Compreensão que, num nível mais poético, faz eco às palavras de Mary Wollstonecraft, citadas pela própria Goldman no seu escrito, algo autobiográfico, sobre a pensadora inglesa; não por acaso, intitulado Mary Wollstonecraft: vida trágica e luta apaixonada pela liberdade (1911): 

Regular a paixão nem sempre é uma atitude sábia. Ao contrário, talvez seja justamente essa uma das razões pela qual os homens têm um julgamento superior e maior coragem do que as mulheres: eles dão livre curso à sua grande paixão e, por perderem a si mesmos com mais frequência, ampliam as suas ideias.