Por que ler Maria Firmina dos Reis hoje

20/10/2021 19:58:46
Editora Hedra
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Por Rodrigo Jorge Ribeiro Neves, organizador de A escrava.

A escrava
Maria Firmina dos Reis

A imagem da estátua de Borba Gato em Santo Amaro consumida pelas chamas ganhou as redes sociais e provocou acaloradas discussões, inclusive entre os que estavam de acordo com o passado criminoso do bandeirante. Enquanto uns defendem a ressignificação da memória no espaço público ensejada pela ação, outros a desaprovam, acreditando nas vias institucionais para a remoção do monumento. Não discordo inteiramente destes últimos, pois precisamos lutar por instituições cada vez mais fortes e que sirvam de proteção, em especial, das minorias. No entanto, é contra estas que as instituições, historicamente, no Brasil, atuam até hoje. As milhões de pessoas escravizadas, violentadas e mortas, entre negros e indígenas, sustentaram a colônia e o império brasileiros. O sistema escravocrata foi abolido e o regime político mudou, mas o extermínio da população negra e ameríndia não. Para uns é exceção, para os que vivem nas aldeias e periferias deste país, é a regra.

A literatura, como instituição, também promove suas exclusões, pois reflete e é refletida pela sociedade. Por isso, o resgate de escritoras e escritores apagados de sua história é cada vez mais necessário, não apenas porque precisam ser lembrados, mas também porque precisamos deles se queremos romper com essa estrutura de manutenção de privilégios e aprofundamento de desigualdades. Maria Firmina dos Reis foi uma escritora negra. Nascida no Maranhão, em 1822, publicou seu primeiro livro em 1859, Úrsula, tornando-se a primeira romancista brasileira. Seu nome ficou esquecido por muito tempo, até ser recuperado em 1962, em um sebo no Rio de Janeiro. Desde então, sua obra vem sendo reeditada e conhecida, mas, ainda assim, é pouco. Nenhum esquecimento, na história ou na literatura, é acidental, ainda mais se for de uma mulher, negra e escritora latino-americana. 

Ler a obra de Maria Firmina dos Reis nos oferece novas perspectivas sobre a literatura e a sociedade brasileira do século XIX, mas que, de certa maneira, ressoam nas estruturas mantidas até os dias atuais. Ao dar protagonismo a uma mulher negra, escravizada, em uma de suas narrativas curtas como A escrava, Maria Firmina reforça uma visão moderna da história, contada a partir dos oprimidos, dos que lutaram e resistiram contra o seu eliminação física e simbólica. A escritora, filha de uma ex-escravizada liberta, sabia da importância de dar voz àquelas que foram silenciadas, e ainda são, pelo gênero e pela cor de sua pele, questão que também surge em alguns de seus textos poéticos. Por isso, o conto não é apenas um relato sobre a escravidão, mas, também, de resistência e liberdade, demonstrando, na esteira de outras grandes personagens negras da nossa história, que não foi a assinatura de uma princesa que, efetivamente, deu fim ao sistema perverso. Ele veio ao chão após muita luta em diversas frentes. A literatura de Maria Firmina dos Reis estava em uma delas, e ainda está, como tantas outras, até hoje.

Com a novela Gupeva, a escritora maranhense se volta para o indianismo romântico, assim como em um de seus poemas em Cantos à beira-mar, mas, diferentemente de alguns dos principais nomes do período, a aproximação entre o nativo e o colonizador é questionada. No lugar da idealização do indígena, a narrativa aponta para a profunda violência envolvida na relação entre as duas culturas, culminando na morte das principais personagens nativas. Assim como em sua narrativa antiescravista, Maria Firmina confere protagonismo aos que foram explorados em sua própria casa e destaca a repetição da violência sofrida entre as gerações, exibindo o caráter estrutural e atroz da colonização. 

Além de tocar em temas cruciais, as narrativas curtas de Maria Firmina dos Reis são bastante atuais na maneira como lidam com o espaço e o tempo em sua composição, por meio de flashbacks, o que mostra a sintonia da escritora com a narrativa moderna. Neste sentido, forma e conteúdo se entrelaçam, pois a escritora apresenta e discute problemas resultantes de um passado de profunda violência e que, se não forem resgatados e trabalhados pela memória, tendem a se perpetuar sem fim. Não por acaso, a violência contra negros e indígenas persiste, e não apesar das instituições, mas, principalmente, por causa delas. Por isso, precisamos de mais monumentos à vida e obra de Maria Firmina dos Reis, para que não mais ergam nem lamentem o fim dos monumentos da nossa barbárie.