Por que ler Júlia Lopes de Almeida hoje

21/10/2021 18:37:48
Editora Hedra
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Por Rodrigo Jorge Ribeiro Neves, organizador de Contos e novelas.

Contos e novelas
Júlia Lopes de Almeida

Júlia Lopes de Almeida é uma das maiores escritoras da literatura brasileira. Apenas isto já seria motivo suficiente para que seus livros ocupassem lugar em nossas estantes e fossem lidos e relidos hoje, nas escolas, universidades e clubes de leitura. No entanto, os fatos que a levaram a não ser reconhecida como deveria tornam ainda mais urgente a divulgação e discussão de sua obra,  em muitos aspectos reveladora das tensões sociais, políticas e humanas na virada do século XIX para o XX, mas que também dialogam com as questões que tanto nos inquietam na atualidade.

Uma das fundadoras da Academia Brasileira de Letras, Júlia Lopes foi preterida a assumir uma vaga por ser mulher. Em seu lugar, entrou o marido, o escritor e jornalista Filinto de Almeida. Ele próprio reconhecera o equívoco da decisão em entrevista a João do Rio, admitindo que ela é quem deveria estar na agremiação, não ele. A primeira mulher a conseguir uma vaga como imortal foi Rachel de Queiroz, mais de meio século depois, permitindo que outras mulheres pudessem apresentar suas candidaturas. Apesar disso, há muito ainda a avançar. Segundo a pesquisa do IBGE “Estatísticas de gênero: indicadores sociais das mulheres no Brasil”, publicada em 2021, a participação feminina nas atividades domésticas consome, em média, mais de 21 horas semanais, já nós, os homens, gastamos quase metade desse tempo. Essa disparidade se reflete em diversos cenários, não apenas na literatura. Júlia Lopes de Almeida sabia disso, como escritora e mulher na sociedade brasileira daquele tempo, mas ainda tão deste também.

Além de discutir o papel da mulher, em sua literatura, Júlia Lopes também expõe as entranhas da sociedade escravocrata e suas consequências pós-abolição, temas urgentes na contemporaneidade, em que o racismo estrutural molda o lugar da população negra na sociedade e  seus mecanismos de exclusão e produção de desigualdades. Como uma das figuras representativas do realismo e do naturalismo no Brasil, Júlia Lopes imprime objetividade aos seus relatos, evidenciando criticamente os conflitos humanos e sociais no núcleo familiar diante da passagem do tempo e das transformações que a modernidade nos trouxe. 

A presença do insólito na ficção de Júlia nos envolve. A literatura gótica da escritora é impregnada de mistério e nos conduz a finais surpreendentes, revelando seu pleno domínio das técnicas narrativas modernas, muito empregadas nas narrativas de ficção contemporânea em diversos formatos. Aliás, muitas de suas histórias dariam excelentes produções audiovisuais, como filmes e séries. Quem sabe não surjam cineastas interessados em levar para a tela sua obra? Por isso, ler as histórias escritas por Júlia Lopes de Almeida, além de nos colocar diante de problemas estruturais na formação da sociedade brasileira, estimula a nossa imaginação por meio de sua sofisticada arte de contar histórias, tão fundamental em qualquer tempo.