O racismo como pirataria social do século XXI

06/10/2021 15:34:48
Editora Hedra
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Por Marcelo Pinheiro.

Narrativas da escravidão 

Principal destaque entre os últimos lançamentos da editora Hedra de setembro, a coleção Narrativas da escravidão chega ao leitor brasileiro em momento agudo de discussão sobre a herança nefasta da escravidão como força motriz de perpetuação da cultura do racismo em pleno século XXI.

A reação popular de indignação contra a morte de George Floyd, ex-segurança de 46 anos, assassinado por asfixia mecânica durante abordagem feita na noite do último dia 25 de maio por Derek Chauvin, policial branco de Minneapollis, em Minnesota, foi estopim do movimento Black Lives Matter. Idealizado por Alicia Garza, Patrisse Cullors e Opal Tometi, três ativistas do movimento negro norte-americano, o levante teve ressonância planetária, inspirando manifestações que recrudesceram a luta antirracista ao redor do mundo.

Fenômeno social não circunscrito ao cotidiano dos descendentes de negros escravizados nos Estados Unidos, o racismo estrutural e violência de Estado decorrente da normatização dessa mancha histórica secular também faz diariamente vítimas no Brasil. Reafirmando estatísticas desafiadoras e anteriormente conferidas, o Monitor da Violência, mecanismo de aferição dos dados de atuação da Segurança Pública realizado em parceria que envolve esforços do Núcleo de Estudos da Violência da USP (NEV-USP), o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) e o portal de notícias G1, cravou, em relatório divulgado nesta semana, a repetição de um filme triste: no primeiro semestre de 2020, em plena pandemia da Covid-19, 75% das vítimas letais decorrentes de ações das corporações da Polícia Militar espalhadas pelo Brasil são negros.

Com quase 400 anos de cultura escravista, sintomaticamente o Brasil não investiu, no momento necessário, ou seja, no período pós-abolição da escravatura, com o decreto da Lei Áurea, em 1888, iniciativas como as que agora foram reunidas na coleção Narrativas da Escravidão e apresentadas ao leitor local.

Composta por três títulos, a coleção documenta, na transição do final do século XIX para as primeiras décadas do século XX, contundentes relatos em primeira pessoa daqueles que, nos Estados Unidos, literalmente sofreram na pele o horror de ter seu livre arbítrio e humanidade usurpados em nome de interesses que alicerçaram as bases do extrativismo e do capitalismo predatório acentuado nesse mesmo período histórico.

Cultura negra, resistência, violência, relações familiares durante a escravidão, trabalho, emancipação: esses e outros temas saltam aos olhos do leitor em Nascidos na escravidão: depoimentos norte-americanos.

Coletadas através do Projeto Federal de Escritores (FWP), pertencente ao órgão Administração do Progresso no Trabalho (WPA), criado na esteira do Crash de 1929 para garantir a renda de escritores desempregados, as narrativas revelam a memória de milhares de pessoas que sobreviveram ao trauma da escravidão. Ao todo, o projeto registrou 2.400 relatos.

No segundo título da coleção, conhecemos a história de Harriet Ann Jacobs. Nascida na Carolina do Norte por volta do outono de 1813, a autora viveu a tragédia do cativeiro até empreender uma trajetória de fuga que terminou por levá-la ao Norte dos EUA em 1842. Radicada em Boston, Jacobs enfim conseguiu escrever Incidentes da vida de uma escrava.

Sem deixar de se inserir no corpus dos relatos da escravidão norte-americana, seu incisivo relato guarda uma singularidade: é pioneiro e inspirador das autobiografias femininas, e joga luz nos horrores que eram partilhados apenas entre as mulheres cativas. "A escravidão é terrível para os homens", escreve Jacobs, "mas é muito mais terrível para as mulheres".

Protagonista do terceiro livro da coleção Narrativas da Escravidão, William Wells Brown (1814–1884) foi um abolicionista, romancista, dramaturgo e historiador afro-americano. Nascido escravo, fugiu para a liberdade aos 20 anos de idade. Aos 33, publicou Narrativa de William Wells Brown, escravo fugitivo, uma crítica à ganância e à hipocrisia religiosa, ao preconceito e à violência, mas, sobretudo, uma proclamação da humanidade do seu autor e de todos os que sofreram ao seu lado.

No final de agosto último, Tales Ab’Saber, psicanalista, Doutor em Psicologia Clínica pelo Instituto de Psicologia da USP e membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, conversou sobre temas centrais e adjacentes da coleção Narrativas da Escravidão com o historiador Tâmis Parron, organizador da coleção agora lançada pela Editora Hedra.

Doutor em História pela Universidade de São Paulo (USP), Parron é professor pesquisador do Instituto de História da Universidade Federal Fluminense (UFF), coordenador do Núcleo de História Comparada Mundial (UFF) e membro do Centro UFF sobre Desigualdades Globais. Entre outros títulos, é autor de A política da escravidão no império do Brasil (1826–1865), vencedor, em 2012, do Prêmio Jabuti, na categoria Ciências Humana.

Ab’Saber, autor de Lulismo: carisma pop e cultura anticrítica (Editora Hedra), trabalha agora em seu novo livro, O soldado antropofágico — escravidão e não pensamento no Brasil, título que será lançado em breve e é melhor detalhado nos parágrafos a seguir.


Íntegra da conversa entre Tales Ab’Saber e Tâmis Parron

Parron: Tales, a gente precisa falar sobre a escravidão negra, precisa sempre, mas hoje mais do que nunca. Todo brasileiro precisa falar da escravidão para entender que a história dela é uma fábula dramática sobre si mesmo. Tem muita gente que ainda se nega a desentranhar o assunto do passado. Você está escrevendo sobre isso, o que você está escrevendo?

Ab’Saber: Estou. A ideia do livro é fundamentalmente esta: o reacionarismo antissocial e anti-intelectual brasileiro tem origem muito forte na escravidão. É um fundo constante das elites brasileiras, que não foi simplesmente transformado. Funciona de fato, em um sentido mais amplo, como não dar estabilidade para a democracia, não deixar a democracia de fato ganhar corpo para organizar o país, mas funciona psiquicamente como anti-intelectualismo, ressentimento, desprezo social sempre bem reposto. Meu livro é a tentativa de investigar essas coisas no próprio século XIX da decisão trágica pela escravidão brasileira. É a história de um viajante alemão, que começa em 1824. Ele desrecalca a coisa toda de uma cultura congelada na impossibilidade de dizer o que é e o que faz: a própria ordem escravista. E então, para nossa surpresa e quase choque, fala tudo que os brasileiros não falam. É um espanto. O viajante, que avaliava vir a ser brasileiro ali, na raiz da coisa toda, está falando de outro lugar, de uma outra perspectiva. Esse deslocamento que é o barato.

Parron: Como é o nome do livro?

Ab’Saber: Se chama O soldado antropofágico — escravidão e não pensamento no Brasil. E fala daquilo que a escravidão recusava, que é todo um exercício cultural de evitar dimensões de sentido sobre a própria vida, e a vida do escravizado. Inclusive, você é uma das referências importantes. Cito o seu A política da escravidão no Império do Brasil mais de uma vez.

Parron: Estou escrevendo também sobre escravidão. Na verdade, sobre escravidão, capital e poder político na economia global do século XIX. Um veio que dá para explorar bastante… Em perspectiva comparada, a escravidão no Brasil se destaca das outras porque é uma experiência histórica universal na nossa formação. No período colonial, ao mesmo tempo que a economia brasileira se particulariza, se diversifica, se complexifica no tempo, o escravo vai se universalizando como a principal forma social do capital neste país. É um processo simultâneo e combinado de diversificação econômica e unificação social. E esse processo é surpreendente porque, quando ele deságua na nossa independência, o Brasil é o único país de dimensões continentais que está se descolonizando e onde todo mundo — todo mundo mesmo, da cidade ao campo, nas serras e nas planícies, de norte a sul — se reconhece como escravista na cúpula do edifício político. Não existe outra experiência sociopolítica como essa em nenhum lugar outro do mundo.

Ab’Saber:  E aquele discurso do José Bonifácio de Andrada contra a escravidão e o tráfico negreiro na Constituinte de 1823? É uma exceção relevante? O que ele significava?

Parron: Interessante isso. É uma exceção que explicita a regra. O Bonifácio tinha uma ascendência intelectual muito grande sobre as pessoas. Por isso ele conseguiu meter o irmão dele na comissão de redação da Constituição na nossa primeira Constituinte, a de 1823. Com o irmão lá, ele conseguiu telecomandar a redação do projeto de Constituição, botando nele um artigo que previa a emancipação futura dos escravos. O nosso primeiro projeto de Constituição tinha um artigo emancipacionista, e quem fala disso? Por que não aprendemos na escola sobre essa dimensão épica e potencialmente transformadora de nosso primeiro projeto de país? Porque os escravistas venceram com o silêncio. Quando a Constituinte de 1823 foi dissolvida, os escravistas "escovaram" o texto a portas fechadas. O resultado foi a Constituição de 1824, até hoje a mais longeva do Brasil. Ela é uma resposta consciente ao antiescravismo do Bonifácio. É um texto 100% escravista. É um golpe, uma puxada no tapete, uma contrarrevolução total perto do que o Bonifácio fez. E tudo isso foi feito do jeito que você está falando, na forma do não falar, para não dar o que pensar.

Ab’Saber: Sempre com esse jogo não explicitado, mas muito presente. Pelos meus estudos, e você conhece melhor do que eu, a explicitação cultural da defesa da escravidão será tardia, vai se dar somente quando o movimento abolicionista, a partir de 1860 e 1870, se impõe com uma dinâmica cultural nas cidades importantes do país. Sendo assim, como foi, a gente está falando de quase 50 anos de hegemonia escravocrata, sem representação cultural ou literária, crítica, praticamente nenhuma. A gente esquece os tempos. 50 anos. Meio século: isso foi suficiente para lesar o país para sempre. Meio século de hegemonia escravocrata.

Parron: Esses 50 anos de hegemonia escravista, entre 1820 e 1870, viraram uma sequência genética no nosso DNA histórico. Um filamento genético ativo que condiciona o nosso metabolismo social até hoje.

Ab’Saber: Um exemplo do nosso atraso dessa sensibilidade democrática coletiva para a vida negra na escravidão é o fato de que o Brasil não configura nada direito, nenhum dos seus processos, dos políticos aos econômicos, é feito direito, ele embaralha tudo. Aquele Quarto de despejo, da Carolina Maria de Jesus, é um livro dos anos 1960, de uma empregada doméstica negra e ex-moradora da Favela do Canindé (bairro da zona norte de São Paulo), e que é uma referência fundamental da experiência negra da exclusão. Uma voz tardia, um livro dos anos 1960! Sobre a voz direta dos escravizados, africanos e afro-brasileiros, de que trato no livro, não tivemos praticamente nada. Trato disso no livro, porque uma hora, central em toda argumentação, o tal do soldado alemão faz o relato da voz de uma escravizada de ganho nas ruas do Rio de Janeiro. Mas a nossa experiência de ocultamento e desprezo foi mais forte, apesar de todo modernismo. Apenas os efeitos culturais da experiência negra na projeção de formas do país, importantíssimas, falaram. Mas nenhuma voz da experiência, nenhum retrato histórico dos sujeitos, assujeitados, da escravização brasileira. A coisa é tão escondida, o que os escravizados do Brasil teriam a falar, que eu só me lembro de uma entrevista de uma descendente de escravizados na Revista do Cebrap. Isso foi há 20 anos atrás. E foi comemorado, na época, nos meios preocupados com o assunto, que então não eram muitos, como se fosse: "Nossa, um contato com a escravidão brasileira!". Uma única entrevista!


Sam Jones, ex-escravizado que relata sua experiência em "Nascidos na Escravidão"


Parron:  Então, isso que você está colocando é super interessante. O livro Nascidos na Escravidão: depoimentos norte-americanos, que sai agora por aqui, tem um contexto institucional específico. Os Estados Unidos entram naquele crise brava, em 1929, e os escritores passam a viver de pires na mão. O governo norte-americano, entre suas várias iniciativas anticíclicas, resolve pegar de roldão tudo quanto é escritor desempregado e botar pra trabalhar entrevistando outras pessoas. E então veio a grande sacada: entrevistar negros que tivessem tido a experiência de viver no cativeiro. Para fazer um paralelo: o que é que nós estávamos produzindo em 1930 de importante sobre a escravidão? Podemos dizer Gilberto Freyre. A gente pode discordar dele, mas não pode dizer que ele é irrelevante. Gilberto Freyre é, para mim, um daqueles caras de importância inegociável. A gente pode discutir…

Ab’Saber: Ideologicamente.

Parron: Exato. Sua ideologia, mas não a sua relevância. O Gilberto Freyre, na mesma época, estava fazendo o Casa-grande & senzala. Um pouco antes, ele tinha organizado o Centro Regionalista do Nordeste e o Congresso Regionalista do Nordeste. Estava organizando essas coisas para dar ao Nordeste uma expressão cultural e literária coesa que correspondesse à noção de Nordeste que estava sendo criada no plano administrativo do país. Se você parar para pegar o programa do Congresso, você vai ver que, levado a sério, ele pressupõe uma escavação arqueológica da cultura do Nordeste, o que incluiria a vida negra na escravidão. Só que ninguém na mesma época, nem mesmo o Freyre, teve a sacada de entrevistar sistematicamente quem tinha vivido no cativeiro. Os brasileiros viram os norte-americanos produzirem aquele imenso repertório de discursos negros sobre a escravidão, mas não fizeram nada. É incrível. O Brasil imita os Estados Unidos quando convém: bota rock no samba e mete federalismo num país imperial. Mas deixa de lado o que não convém: escutar os negros sobre a sua experiência no cativeiro. É o Brasil. No fim do século 19, o crítico literário Silvio Romero tinha dito: "Olha, esse pessoal que viveu no cativeiro ainda está vivo. A gente vai esperar morrer para estudar?". É uma frase rápida, mas reveladora. Os Estados Unidos não esperaram. O Brasil esperou.

Ab’Saber: E o capital teve um papel gigantesco nisso tudo…

Parron: A experiência no cativeiro ao qual o leitor tem acesso por meio desses livros [da coleção Narrativas da Escravidão] é impensável fora do contexto mais amplo da economia mundial do século XIX e das formas de dominação do capital naquela sociedade perversa que foi o sul dos Estados Unidos do século XIX. O capital é sim, como você está sugerindo, o pressuposto permanente de todas as experiências que estão transpostas nos livros. E olha que curioso: ele é o pressuposto até mesmo das condições de produção dos relatos da década de 1930. Porque a maior parte das entrevistas nasceu da crise do próprio capital.

Ab’Saber: Mas e as narrativas autobiográficas dos escravos produzidas no próprio século 19, como o da Jacobs e do Brown, e como a do Frederick Douglass?

Parron: Aí a lógica foi outra. O movimento abolicionista norte-americano é que editou esses relatos, e ele fez isso porque o público consumidor dos abolicionistas não vivia numa sociedade escravista. A escravidão estava no Sul dos Estados Unidos, o abolicionismo estava no Norte. O abolicionismo brasileiro é singular nesse aspecto porque ele se forma no interior de uma sociedade escravista. Então esse tipo de propaganda não foi central para ele. Todo mundo tinha contato prático direto com a escravidão e suas formas de conflito e crueldade.

Ab’Saber: Pois é, inclusive estava pensando como é que vou começar o texto que vou escrever sobre os livros [os títulos da coleção Narrativas da Escravidão]. Vou começar exatamente falando que no Casa-grande & senzala a única referência em que você tem a experiência negra, dentro da referência sobre os negros, é o Machado de Assis, quando ele fala da formação do Brás Cubas — fora algumas músicas, modinhas e cantos, alguns jogos e brincadeiras que são ligados à cultura da escravidão, mas nunca nenhuma voz da própria experiência, dos próprios escravizados.

Parron: É incrível. E o Gilberto Freyre estudou nos Estados Unidos. Ele provavelmente sabia das entrevistas com ex-escravos.

Ab’Saber: Sim. Ele podia ter ido na fazenda da família e conversado… Me parece que o primeiro que fez um movimento nessa direção — não nessa direção da experiência do cativeiro, mas da experiência do povo, extra-ideologia de estado e o racismo de estado — foi o Mario de Andrade. O Machado tem algo, disperso, Pai contra mãe, o escravo Pancrácio, e o ex-escravo meio liberto de Iá iá Garcia. Mas Mário colocou prá consciência o trabalho de saber, de viver e de conhecer, para renovar e transformar com, o próprio Brasil. "Vamos ouvir os batuques, ouvir os terreiros", que era um modo de reconhecer voz e criação especial. Pela cultura podia, os modernistas foram por aí. Mas diretamente, pela própria escravidão, não. "Vamos ouvir as vozes, as formas sublimadas da violência". Mas era isso. Só quando as pessoas falavam culturalmente. Nada de falar sobre a própria vida e experiência. E sobre o branco e seu modo de produzir economia e poder.

Parron: Mario de Andrade, sou admirador dele. Ele dedicou o manuscrito do Macunaíma ao Alencar. Depois arrancou, talvez porque, para uma obra modernista, era uma identificação muito direta e didática.

Ab’Saber: Eu não sabia.

Parron:E é interessante porque ele, ao mesmo tempo, herdou e inverteu o tratamento que Alencar deu à cultura popular, um tratamento nacionalista como o do Mário, mas fortemente a favor da escravidão, o que Mário certamente não aceitava.

Ab’Saber: O Alencar é o primeiro grande articulador ideológico da hegemonia escravista no Brasil. Um mundo de vida prática e noções tácitas, que se perdiam no tempo da vida colonial, que pouco precisavam se articular. Nada precisava ser dito, e diante da nova ordem do mundo, era constrangedor dizer. Alencar assumiu a tarefa de dotar o Império escravista do Brasil da sua literatura e das suas formas de auto representação.

Parron: Isso, e a defesa da escravidão que o Alencar faz atinge um nível de elaboração ideológica superior quando ele diz que a grande herança da escravização dos negros no Brasil é a formação de uma singularidade nacional da nossa cultura. Se o Brasil é o Brasil, é porque o Brasil contém o negro nele, e o Brasil só contém o negro por causa do tráfico negreiro. Então, diz ele, dobre a língua antes de censurar o tráfico negreiro. Já li bastante defesa da escravidão fora do Brasil. Já li bastante defesa da escravidão em Cuba, na Espanha, no império britânico e nos Estados Unidos. Nunca vi ninguém defender a escravidão nos termos do Alencar, da contribuição cultural do negro escravizado para a singularização de uma expressão cultural nacional.


Clara Brim, ex-escravizada que relata sua experiência em "Nascidos na Escravidão"


Ab’Saber: Alencar é o primeiro que fala isso, mas isso estava pairando por ali. Aquela ideia de que a África ia civilizar o Brasil, do político conservador escravista Bernardo Pereira de Vasconcelos. Essa frase, em grandes termos, já contém isso. E nos textos de elogio da nação escravista do Brasil Alencar lembra que foi Humboldt o primeiro a dizer algo assim. Outro alemão…

Parron: Já contém isso, sim. Tem razão. Mas Alencar como que elabora em cima. Sim, foi aquele senador mineiro Bernardo Pereira de Vasconcelos quem primeiro disse a frase "A África civiliza o Brasil". Ele usou o termo "civilizar" no sentido de "riqueza material". Ele queria dizer algo assim: "no nosso tempo, riqueza é sinônimo de civilização; com o trabalho do africano, produzimos riqueza; logo, a África civiliza o Brasil". Alencar transfigura esse raciocínio para o plano da cultura, da linguagem artística, da identidade nacional. Nesse sentido, sua defesa da escravidão correu por fora da curva ideológica do século 19. Não conheço outro ideólogo que tenha feito o mesmo.

Ab’Saber: Esse era o desafio deles, de fazer um estado moderno com um povo escravizado. O horizonte discursivo é que a África vai civilizar o Brasil. Algo de novo e vivo vai surgir daquela hecatombe fora dos padrões políticos e sociais modernos europeus, mas legada ao Brasil pela própria Europa. Mas a maior parte dos negros escravizados que entravam no Brasil ia ser mesmo massacrada nas fazendas das monoculturas para o mercado mundial.

Parron: Como toda ideologia, Tales, o discurso pró-escravista é um meme. Você congela, simplifica, exagera, distorce e vende.

Ab’Saber: Sim, um fragmento pelo todo, que é sempre outra coisa. Minha questão é também uma questão de forma. Aquela coisa do Mimesis [livro de Erich Auerbach]. De como é que você concebe a realidade como um princípio e dá uma forma a esse princípio. Um ponto em que meu livro insiste, sobre como contra o Brasil que não se contava, é este: o da vida sexual das cidades negras, porque o alemão se interessa pessoalmente e nos relata suas experiência com essa história; o outro ponto é que, para ele, os negros são, desde sempre, excepcionais poetas e músicos, que formalizavam com riqueza e vitalidade a sua realidade através da música. Toda a vida deles era cantada. E era cantada de um modo muito inteligente, dizia o alemão. Olha que interessante! Ele está falando da coisa antropológica e social que fará o Cartola, o Nelson Cavaquinho, o Dorival Caymmi, o Mano Brown. Que é o modo de uma cultura não letrada, àquele tempo, dar conta da sua experiência. E que sempre esteve lá, no mundo da vida do Brasil.

Parron: É nesse sentido que você diz que o germe da ideologia do Alencar já estava pairando por ali. Tem razão.

Ab’Saber: Sim. Em um momento do livro em que o viajante alemão diz para uma mulher escravizada que lhe vendeu doces e água: "Dance e cante pra mim", que é a sem-vergonhice da situação privilegiada do homem branco senhorial nesse jogo, a cafajestice sexista brasileira, de longa duração, "me seduza para ganhar um tostão, para pagar o seu senhor brasileiro à noite, que é um cafetão". Essa é a perspectiva sexual, sexista, objetificante e perversa da situação. Mas vamos "fingir" que há algo mais de legítimo nesse jogo erótico-sexual, que de fato acontecia pelas ruas da cidade — "eu te reconheço como sujeita se você responder ao teatro que projeto" — ao mesmo tempo em que esse jogo erótico, se tornado ambíguo, e pressupor agência da escravizada, o que é importante, pode inclusive vir a ser uma história de amor, se tornar história de outra ordem, produção de vida para além do imediato e do dado, e até uma alforria — "então, é bom dançar, quem sabe…". Era um poder negociado, em que erotismo, proto-samba, e micropolítica especular e agenciada produziam possíveis. Sexual e social, que era proposto às mulheres que batalhavam a sua vida naquelas condições de iniquidade. Isso é uma coisa que eu gostaria de saber Tamis: a minha hipótese é que a imensa maioria das alforrias era de mulheres. Exatamente porque parte delas passava por estas formas fundantes de agência desde o corpo e do erotismo, que vão se expressar à perfeição no jogo e no balanço de vai não vai da própria dança do samba, como se viu já no século XX.

Martin Jackson, ex-escravizado que relata sua experiência em “Nascidos na Escravidão”


Parron: Era, sim. Não dá nem pra comparar.

Ab’Saber: E não é por acaso. Acho que, em grande parte, tem a ver com isso. O que será o lugar da experiência social-erótica da mestiçagem. Violência patriarcal e formas de viver a um tempo. E é a sublimação do estupro colonial, que deixa formas culturais com um ponto de fuga de utopia. Porque então a cultura já mascara e desvia o estupro. E inventa toda uma dança. Um aparente jogo de sedução. Uma civilidade desconhecida. É o sublimado da violência direta, como sonho na cultura. No coração disso, então, por mil motivos que a gente pode imaginar quais sejam, a moça escravizada então diz ao viajante alemão, senhor branco estrangeiro:

"No mundo não existe céu,

Mas, quando piso nessa praia carioca,

penso estar no paraíso.

No mundo não existe céu,

mas, se entro em uma loja de fita,

penso estar no paraíso".

É uma poesia muito inteligente, e muito bonita, para o meu gosto atravessado por modernismo brasileiro. Muito sofisticada. E é uma poesia de aculturação. Se isso tudo for verdade, então a moça preferiu, nesse momento, por um segundo no meio da grande história, enunciar pro cara: "Esse lugar é o meu lugar. É daqui que eu me projeto com expectativa de futuro". Sim, em 1824, o país estava se abrindo, e estava se abrindo também para essas pessoas, os escravizados e escravizadas africanos, a casta trabalhadora forçada do Brasil, que, em conjunto com a fuga e com a luta, podiam também considerar o horizonte de vir a ser brasileiros, como o espaço do vir a ser sujeito de direitos, novos e por vir. Existia a possibilidade de essa praia carioca vir a ser um lugar de cidadania. Pelo menos aquela moça diz algo um pouco assim. Então, eu acho muito surpreendente o que aquela mulher canta. Muito contraintuitivo. Ela canta uma afirmação da própria coisa histórica ao redor, do ponto de vista inteiramente dela, tem unidade forte do eu, que se reafirma na forma da poesia. Do mesmo jeito que ele, o narrador, está afirmando tudo aquilo como uma cultura ambígua e erótica extra-moderna, extra-europeia. Isso, a gente sabe, são esses os problemas do Casa-grande & senzala, em que Freyre resgata de modo impressionante a iníqua guerra sexual das fazendas do Nordeste, estudando tudo do ponto de vista do grande sadismo liberado das fazendas. E são também os problemas sociais e culturais do modernismo. Uma coisa que vai de Di Cavalcanti à Jorge Ben. São, até, já em outra chave, ora negativa, ora utópica, os problemas do tropicalismo. Todas essas coisas estão dentro daquela cena. Então você vê que o vértice modernista sempre esteve lá para o Brasil. Era a solução possível, para um país impossível.

Parron: Legal essa ideia de que a democracia no Brasil só é vivida e experimentada no plano da cultura. Isso dá pano pra manga. Na escravidão você explora o trabalho à revelia do trabalhador. Isso significa que você não precisa do Estado para criar estímulos positivos à organização da vida. Você não precisa abrir escolas gratuitas, medir e parcelar terras, construir moradias populares, você não precisa nada disso para atrair e reter a mão de obra. Na escravidão, a violência dá conta do recado, e os escravistas se habituam a ver o Estado como espaço de violência contra os pobres. Essa é a herança escravista que envenena a cabeça dos nossos políticos e empresários. Não conseguimos imaginar o uso criativo do Estado para organizar a vida social sobre uma base de estímulos positivos. É tudo na base do "hoje a chinela vai cantar".

Ab’Saber: Essa é a questão, inclusive fratura exposta bem agora no Brasil. E todo movimento social contemporâneo, no que ele tem de crítico e verdadeiro, é: chega de ser essa moça que dança para a reprodução dessa estrutura! Ninguém quer mais ser isso, por que essa ilusão está devendo à pessoas, aos negros, aos pobres, os direitos concretos, sempre adiados nessa dança. A gente quer a nossa parte em dinheiro, em vida concreta. Não se quer mais ser a moça do Fantástico, nem a Garota de Ipanema. Embora se deseje ser a moça mercadoria espetacular do poder sexual do funk…

Parron: Sim. Daí vem esse traço do pensamento conservador brasileiro que é de longa duração, do Alencar até o [Paulo] Guedes, segundo o qual nenhum poder externo à relação entre o empregado e o empregador deve interferir no que parece uma relação harmoniosa, sob pena de produzir o conflito onde só existe a paz.

Felix Haywood, ex-escravizado que relata sua experiência em “Nascidos na Escravidão”


Ab’Saber: É. Sim, o PT, quando quer formalizar e avançar direitos das empregadas domésticas, hiper tardios, na verdade, está "cindindo os brasileiros", dizem esses velhos escravocratas e super-modernos operadores do mercado financeiro global, todos muito ricos.

Parron: Na época da lei das domésticas, os discursos no Congresso e na imprensa contra o direito das trabalhadoras domésticas eram muito parecidos com os discursos contra a emancipação escrava no século XIX.

Ab’Saber: Sou psicanalista, e sei que o passado acha formas de se impor. Os historiadores, também sabem, quando pegam um veio de longa duração. O passado é matéria do presente. E é estranho, porque tem um pensamento crítico contemporâneo que parece achar que se deve pensar a situação do neofascismo brasileiro como algo absolutamente singular. Sem vínculos com a história, nem com a cultura, de um país como o Brasil… É evidente, um truísmo, que é um problema contemporâneo. É um problema claro do tic-tac do relógio atual, a nova convocação fascista, para o tempo do mundo sem perspectivas e operando formas novas com as tecnologias super novas. Mas sem esses elementos de ressentimento e essa formação antissocial brasileira nunca vencida não se explica o bolsonarismo. Não tem como. A manutenção dessas coisas prévias da estrutura de desprezo antissocial de um lado é racista; de outro lado é contra o trabalho. De um lado é racista; de outro lado é antropologicamente antipobre. Tem as duas camadas. No centro é operação fetichista do poder sem necessitar dar explicações. O gozo da posse impune da palavra, dizia Roberto Schwarz, sobre o sujeito escravocrata do Brasil. Tem a racialização e tem essa coisa contra a empregada, contra o nordestino, contra o povo brasileiro. Por metonímia fantasticamente acelerada qualquer um vai caindo no desprezo, pois somos todos comunistas, não é mesmo? No Brasil, o devir negro do mundo contemporâneo se expressa como o direito radical de um governo de direita recusar a realidade e o direito de simplesmente todos. Não precisa responde se quer à pandemia, problema da escravaria sem valor… Isso é muito forte. Olhe a frase do Guedes: "O problema do Brasil é que as empregadas domésticas estavam pegando avião pra Disney". Na cabeça dele, não é pra ter essa equação "a empregada doméstica pegando avião", nem mesmo para ir para o império cultural degradado dos seus sonhos, o lixo de massas da Disney. E o que eles dizem que querem, mas não querem, é o capitalismo americano, que é de consumo de massa, a democracia de consumo de massa, que foi exatamente para onde o PT levou a coisa, mas isso é uma astúcia e um disfarce. Eles querem de fato a hiperconcentração e o arcaísmo das relações sociais. Quando forem cobrados pela violência inevitável eles vão dizer: "Não, mas nas relações pessoais não é assim. Isso só é assim lá com o tráfico. Só lá exterminamos. Nós somos um povo cordato, cordial". Enfim, uma loucura objetiva antidemocrática de uma sociedade que sempre produz riqueza, sempre excluindo e reproduzindo o próprio gozo da origem, que não passa, nas mentalidades.

Parron: O Brasil é tão reacionário que se você tentar transformar o Brasil nos Estados Unidos — um país conservador até a última costela — você provoca uma revolução.

Ab’Saber: Foi o que aconteceu. O PT levou de fato o Brasil na direção dos Estados Unidos, uma sociedade conservadora, mas de consumo e de valor da classe trabalhadora, o polo econômico do consumo interno. Com regras de controle democrático do jogo do poder.

Parron: Uma experiência insuportável. Como fazer com tanta empregada pegando avião?

Ab’Saber: Crédito e consumo de massa, foi a solução pacificadora petista. Os caras, as elites do Brasil, não querem nem sequer um capitalismo avançado, de tipo nação moderna. Jogam fora a face do consumo interno, que importa em qualquer economia desenvolvida do mundo. De novo: "Nossa sociedade não é a de vocês. Nosso capitalismo não é o de vocês". Daí é que achei interessante a sua fala sobre a nova história do capitalismo , que inclui fortemente toda a acumulação do tempo mercantil escravista na formação do capital moderno. Essa ideia interessante de que o sistema econômico escravocrata era competitivo, que ele não era atrasado em relação a industrialização. Isso é interessante, porque isso também dá força para esses caras, os amigos da origem. Como o capital em seu registro excludente de escravização é competitivo, no fim eles têm ainda um ganho a mais com a derrubada da democracia e dos direitos fragilmente conquistados, que é a possibilidade de transfigurar a relação estado, sociedade e economia em uma nova ordem de acumulação primitiva. É o que está acontecendo agora. Eles derrubam as legislações e vão pra cima da Amazônia. É óbvia a liquidação de parâmetros de civilização para a liberalização de ganho extrativista, baseado em violência direta. E esse é apenas o exemplo mais evidente, gritante, dessa lógica que é geral. Ela gera um capital arcaico e primitivo, mas, em tempos de impasse mundial da realização dos valores, eles geram um capital.

Parron: É isso. Racismo e destruição ambiental são, para o capital, a mesma coisa. A diferenciação racial é uma forma de recriar as condições de acumulação primitiva do capital no presente. Então, no fundo, fazer diferenciação racial, que é uma forma simbólica de hierarquizar a expectativa de retornos futuros conforme o tipo do trabalhador, é uma maneira de você restaurar taxas de lucro em ambientes competitivos, taxas que podem dar tanto retorno quanto abrir um solo fértil no meio da Amazônia. É isso. Diferenciar a cor da pele no mercado de trabalho é como desmatar um lote de floresta na Amazônia. Então, no fundo, se a gente entender a relação entre raça e capital nos moldes como entendemos a relação entre capital e espaço, acho que a gente vai estar mais próximo da essência dos problemas.

Ab’Saber: Esse ponto é fundamental: você está com a faca e o queijo, a bola e o pé diante do gol! Porque é isso. É uma reativação de um ganho marginal do capital por uma acumulação primitiva. E a racialização faz parte desse ganho. Porque você tem uma democracia e tem ganho marginal do capital, quando o negócio passa a ser negá-la. O negócio é derrubar a democracia. Quando se derruba a democracia você tem um ganho a mais de acumulação primitiva. Sobre o trabalho, sobre a terra, sobre a raça.

Parron: Do ponto de vista da acumulação, discriminar e desmatar é a mesma coisa.

Ab’Saber: O que é uma dinâmica imperialista do capitalismo de periferia sempre repor a lógica arcaica. Na periferia, a acumulação primitiva pode se reiniciar e, portanto, não ter desenho nenhum de progresso, que sempre soubemos ser uma falácia do poder. O progresso em relação às periferias do capitalismo é uma falácia dupla. Sociologicamente é um progresso de superfície da elite gestora, o mundo da vida está sempre sendo barrado como organização social mais ampla. A gente acabou de ver isso. O PT deu estrutura e desenvolvimento social para o país, com todos os limites terríveis que também aceitou, e os caras derrubaram como se isso não fosse nada, ao contrário, como se a integração social e o ganho econômico implicado fosse algo ruim. Claro, eles estão querendo ganhar esse ganho marginal forte, da origem, da dominação direta.


Betty Powers, ex-escravizada que relata sua experiência em “Nascidos na Escravidão”


Parron: O problema é dramático na periferia mas ele também bate no coração do mundo. Tem um dado que acho impressionante, está naquele livro do Jason Hickel [The Divide]: muitas pessoas vivem abaixo da linha da miséria; para elas saírem da linha da miséria, quantas vezes o PIB global tem que crescer? Se você projetar a tendência dos últimos 30 anos, o PIB mundial tem que crescer 165 vezes! Ou seja, o projeto de democratização para todos, nos padrões de produção e distribuição de riqueza que conhecemos, é irrealizável. Então, eu acho que a gente tem que levar essas coisas em consideração. Quando você foca a discussão só na raça ou só num lugar, você perde a dimensão da totalidade do problema que o capital mundial impõe.

Ab’Saber: Claro. Inclusive porque esse racismo que nós estamos falando, como você diz e todos os grandes teóricos dessa racialização moderna dizem, esse racismo foi gerado na dinâmica imperialista do capitalismo e do capitalismo dos séculos XVI e XVII. Tanto que aqueles caras mal reconheciam uma ideologia racial. O que depois, no século XVIII e XIX, vai ficar mais afirmativo, porque o que eles reconheciam de fato era a exploração econômica, a escravização direta, na África, na Ásia, na Índia. Eram piratas de vidas sociais estrangeiras saqueando riquezas ou transportando mão de obra para um sistema de produção colonial.

Parron: Verdade, Tales. O racismo é a pirataria social do século XXI.

Ab’Saber: É isso. O racismo moderno é pirataria social. E onde há pirataria social haverá racismo. É o efeito simbólico da violência objetiva. Todos os grandes pensadores do racismo dizem isso. O [Frantz] Fanon diz isso. O [Achille] Mbembe diz isso. Todos sabem.

Parron: Fazer a crítica do racismo é necessário. Mas é suficiente?

Ab’Saber: Suspensa em um sentido total em si mesma certamente não. Se a classe trabalhadora não consegue mais se unificar pela mediação teórica clássica ou pela mediação social clássica moderna, que afinal foi dispersa pelo próprio funcionamento do capitalismo contemporâneo, e sua fragmentação e isolamento total no mundo do indivíduo do mundo do trabalho, onde você não tem mais a planta da indústria, a organização trabalhista, não sei como será uma verdadeira luta pela igualdade social. Como você disse, não tem planeta suficiente para a igualdade, nos termos falsos dados: ou mudamos a forma do capital produzir ou seremos devorados vivos.

Parron: É bem isso. A raça: será que ela está se tornando a forma elementar de mediação social da classe trabalhadora?

Ab’Saber: Talvez. Porque você não tem mais o sindicato, você não tem mais o operariado, você não tem mais o proletário. Essas figuras da modernidade foram arruinadas. E então vai pra identidade direta, como forma de existir politicamente. "Eu e você somos brancos". "Eu e você somos negros". "Nós não temos a mesma experiência social"… Mas está se falando da experiência social da violência de classe mundial, remetida apenas à identidade do mercado, fragmentada e sem unidade mais, a não ser a marca do imediato. De raça e de classe.

Parron: Raça, classe e ecologia.

Ab’Saber: Se você não falar do capital, acabará passando, sem querer, o recibo da desigualdade em outro lugar ou na destruição ambiental. Precisamos manter a categoria do capital em mira. Precisamos dessa categoria universalizante, apesar das lutas só avançarem no plano da disputa direta, no mundo da vida e dos discursos.

Parron: Curioso. Se você perde uma categoria universal, que é classe, é porque, de certa forma, a outra categoria universal também está elidida no debate, que é o capital. Quando as categorias universais são abandonadas, surgem as categorias particularizantes.

Ab’Saber: Sim. Daí o adversário não é mais o capital ou o sentido do capital, O adversário não é mais o banco…

Parron: Isso é um risco. Precisamos falar de escravidão para falarmos de nós mesmos, mas lembrando que ela é inseparável da forma como o capital reorganiza raça, ecologia e classe. Se a luta social caminhar pela discussão exclusiva da raça e se desatrelar de uma discussão radical do capital, o banco pode até trocar seus CEOs como quem troca de pele, já fazem isso, mas a cobra continuará intocada no serpentário.