«O lenço»

06/10/2021 14:43:46
Editora Hedra
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Por Walter Benjamin. Capítulo do livro O contador de histórias e outros textos.

O contador de histórias e outros textos
Walter Benjamin 

Por que a arte de contar histórias está chegando ao fim? — eu já me fizera essa pergunta muitas vezes enquanto me entediava, sentado com outros convidados durante uma noite inteira em torno de uma mesa. Naquela tarde, porém, quando estava em pé no convés de passeio do “Bellver”, ao lado da cabine do timoneiro, e buscava com meu excelente binóculo todos os aspectos da imagem inigualável que Barcelona oferecia do alto do navio, acreditei ter encontrado a resposta para ela. O Sol descia sobre a cidade e parecia derretê-la. Tudo que era vida havia se recolhido nas gradações cinza claro entre a copa das árvores, o cimento das construções e a rocha das montanhas distantes.

O “Bellver” é um navio a motor, belo e espaçoso, ao qual se gostaria de creditar um encargo maior do que o de abastecer o pequeno trânsito insular para as Baleares. E, de fato, sua imagem pareceu se encolher quando, no dia seguinte, o vi esperando pela viagem de volta no molhe de Ibiza, pois eu imaginara que de lá ele tomaria seu curso até as Ilhas Canárias. Assim, eu estava parado, e voltava meus pensamentos para o Capitão O…, do qual eu me despedira há algumas horas, o primeiro e talvez último contador de histórias que encontrei em minha vida. Pois, conforme disse, a arte de contar está chegando ao fim. E, quando me lembrava das várias horas em que o Capitão O… havia passeado de um lado a outro no convés traseiro, olhando de quando em vez para a distância, ocioso, então eu já sabia: quem jamais se entedia não é capaz de contar. O tédio, porém, não tem mais espaço em nosso agir. As atividades, que se uniram a ele secreta e intimamente, estão se extinguindo. E também por isso o dom de contar histórias está chegando ao fim: não se tece e não se fia mais, não se constrói nem se aplaina objetos enquanto se ouve histórias. Em resumo: histórias precisam de trabalho, ordem e disciplina para vingar.

Contar histórias, na verdade, não é apenas uma arte, é muito mais uma dignidade, se é que não é, como no Oriente, um ofício. Contar termina em uma sabedoria, assim como por outro lado a sabedoria muitas vezes se revela numa narrativa. O contador de histórias é, portanto, alguém que sempre sabe dar conselhos. E, para recebê-los, é preciso que também se conte algo a ele. Mas nós sabemos apenas suspirar a respeito de nossas preocupações, nos lamentar, e não contar. E, lembrando um terceiro aspecto, pensei no cachimbo do capitão: o cachimbo que ele batia quando começava a contar algo e batia quando se calava, mas, entre um e outro, quando era necessário, deixava se apagar calmamente. O cachimbo tinha uma piteira de âmbar, mas sua cabeça era de chifre e adornada com pesados trabalhos em prata. Ele o herdara do avô, e acredito que esse cachimbo era o talismã do contador de histórias. Pois também por causa disso não há mais nada interessante a ouvir, porque as coisas não duram mais do modo correto. Quem um dia usou um cinto de couro por tanto tempo até ele se desintegrar em pedaços, sempre haverá de encontrar algo interessante: em algum momento, no decorrer do tempo, uma história se prendeu a ele. O cachimbo do capitão já devia conhecer muitas delas.

Assim eu sonhava quando, lá embaixo, bem no fundo, nas docas, apareceu um homem atarracado com o rosto mais maciço que já esteve enfiado debaixo de um quepe de capitão: o Capitão O…, em cujo navio de carga eu havia chegado pela manhã. Quem está acostumado a partidas solitárias de cidades estranhas sabe ou então é capaz de avaliar o que significa o aparecimento de um rosto conhecido, ainda que não seja um dos mais familiares, em tais momentos, quando a partida que em breve ocorrerá tira do caminho todas as ponderações de uma conversa mais longa, mas ao mesmo tempo também coloca à sua disposição um chapéu qualquer, uma mão, um lenço, nos quais o olhar desabrigado pode encontrar seu ninho antes de se perder na superfície imensa do mar. Eis, pois, que ali estava o capitão, como se eu o tivesse chamado com meus pensamentos. Ele havia saído de casa aos quinze anos, cruzado por aí durante três anos em um navio-escola o Pacífico e o Atlântico, e mais tarde chegado a um vapor americano do Lloyd, que no entanto — por motivo desconhecido — abandonara logo em seguida. Mais do que isso eu não consegui descobrir. Sobre sua vida parecia pairar uma sombra, e ele também não falava com prazer a respeito. E, com tudo isso, no fundo lhe parecia faltar o que é a coisa mais maravilhosa no contador de histórias: o fato de poder contar sua vida, deixando que essa mecha se consuma nas chamas suaves da narrativa. Como quer que seja, sua vida parecia ser pobre se comparada com a do navio que ele sabia fazer viver em todas as suas ripas e vigas. E assim estava ele, ali à minha frente, quando pela manhã deixei o navio. Eu conhecia tão bem tanto seu ano de construção e suas tarifas, seu espaço de carga e sua tonelagem, quanto os salários dos grumetes e as preocupações dos oficiais. Sim, que tempos eram aqueles em que o transporte de cargas ainda era feito por veleiros, onde o capitão, ele mesmo, contratava os fretes nos portos! Nessa época ainda imperava a velha sentença irônica: “Abandonar as viagens marítimas e entrar em um navio a vapor.” Hoje, porém… e então se seguiam, na maior parte das vezes, algumas frases a partir das quais se podia deduzir como também aqui as necessidades econômicas haviam mudado as coisas.

Em tais oportunidades o Capitão O…, de quando em vez, dizia também uma palavra sobre a política. Mas jamais o vi com um jornal. Tornou-se inesquecível para mim sua resposta quando, certo dia, eu conduzi a conversa ao assunto. “Dos jornais”, disse ele, “não se pode saber absolutamente nada; é que as pessoas querem explicar tudo para a gente.” E, de fato: já não é metade da arte de contar, manter o relato livre de explicações? E os antigos por acaso não são exemplares nisso, eles que por assim dizer apresentavam o acontecido a seco, deixando antes que escorresse dele tudo que era fundamentação psicológica e opinião? Suas próprias histórias, de qualquer modo, deve-se admitir, se mantinham livres de explicações supérfluas, sem que, conforme me parecia, perdessem algo por causa disso. Até havia algumas mais estranhas entre elas, mas nenhuma que confirmasse aquela peculiaridade tanto quanto a seguinte, sobre a qual ainda recairia, nesta tarde junto ao molhe de Barcelona, o mais surpreendente reflexo.

“Tudo aconteceu”, assim me contou o capitão na altura de Cádiz, “há muitos anos, em uma das minhas primeiras viagens aos Estados Unidos, quando eu ainda era um oficial bem jovem. Estávamos sete dias em alto-mar e, ao meio-dia do dia seguinte, chegaríamos a Bremerhaven. À hora costumeira, eu fazia minha ronda no convés de passeio, trocava algumas palavras aqui e ali com os passageiros. Foi quando fiquei de repente estupefato; a sexta espreguiçadeira da fila estava vazia. Um sentimento de angústia se manifestou dentro de mim, mesmo que eu tenha, acho, passado por ela ainda mais angustiado nos dias anteriores, quando me voltava com uma saudação muda para a moça que costumava contemplar, imóvel, o vazio à sua frente com as mãos cruzadas sob a nuca. Ela era muito bonita, mas tão chamativa quanto sua beleza era também sua discrição. Esta ia tão longe que só raras vezes tinha-se oportunidade de ouvir sua voz — a voz mais maravilhosa da qual consigo me lembrar — , frágil e rouca, sombria e metálica. Certa vez, quando lhe entreguei um lenço que havia caído ao chão — ainda hoje sei como seu emblema me impressionou: um brasão tripartido com três estrelas em cada um dos campos — , ouvi-a dizer seu ‘obrigada’ com uma expressão que era como se eu tivesse salvo sua vida. Desta vez, pois, terminei minha ronda e já estava a ponto de procurar pelo médico do navio, a fim de saber se a dama por acaso não estava doente, quando de repente um redemoinho de franjas brancas me envolveu. Levantei os olhos e vi como aquela que eu dava por perdida, apoiada sobre o parapeito do convés solar, seguia com os olhos, ausente, um bando de bilhetes e papéis com os quais o vento e as ondas brincavam. No meio-dia seguinte — eu assumira meu posto no convés e inspecionava as manobras de aportar — , meu olhar cruzou mais uma vez com o da estranha de passagem. O navio estava a ponto de ancorar e, vagarosamente, a quilha se aproximava do cais no qual havíamos amarrado a popa. Reconhecia-se com nitidez a feição dos que esperavam; febril, a estranha os media. O baixar das âncoras havia ocupado minha atenção quando, de uma hora para outra, se ergueu um grito em várias vozes. Eu me virei e no mesmo instante vi que a estranha havia desaparecido; no movimento da multidão se podia perceber que ela havia se precipitado abaixo. Qualquer tentativa de salvação era inútil. Mesmo que se conseguisse desligar as máquinas naquele mesmo instante — o casco do navio não estava mais do que três metros distante do cais, e seu movimento era impossível de ser detido. Quem ficasse no meio, estava perdido. Então aconteceu o improvável: houve alguém que fez a tentativa formidável. Era possível vê-lo, cada um dos músculos distendidos, as sobrancelhas virando uma só, como se quisesse fazer mira, saltar da grade e, enquanto o vapor foi se aproximando em todo seu comprimento a estibordo — para horror de todos os que acompanhavam o espetáculo — , a bombordo apareceu, sem que a princípio se notasse, pois ninguém olhava para aquele lado, o homem, salvo, e em seu braço a moça, na superfície da água. Ele de fato fizera mira — exatamente, aproveitando todo seu peso e se precipitando sobre a outra, arrancando-a consigo para as profundezas, para em seguida reaparecer por baixo da quilha do navio — , trazendo-a para a superfície. ‘Quando a segurei assim’, disse ele mais tarde a mim, ‘ela sussurrou ‘obrigada’ como se eu tivesse lhe estendido um lenço que caíra ao chão’.”

Eu ainda tinha no ouvido a voz com a qual o contador de histórias havia pronunciado essas últimas palavras. Se eu quisesse lhe dar a mão ainda uma vez, não havia tempo a perder. Quando eu já fazia menção de descer correndo as escadas que levavam até ele, percebi como os armazéns, barracas e gruas recuavam lentamente. Estávamos zarpando. O binóculo diante dos olhos, deixei Barcelona passar à minha frente pela última vez. Depois o baixei devagar até o cais. Ali estava o capitão, em meio à multidão; ele devia ter acabado de me notar. Saudando, levantou a mão, eu acenei com a minha. Quando pus o binóculo outra vez diante dos olhos, ele havia desdobrado um lenço e o abanava. Nítido, vislumbrei o emblema em um dos cantos: um brasão tripartido com três estrelas em cada um dos campos.