O enigma Orides revelado

05/10/2021 13:21:42
Editora Hedra
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 Por Suzana Salama.

Poesia completa
Orides Fontela

Orides Fontela se revelaria a poeta mais importante de sua geração — que reúne Hilda Hilst, Adélia Prado, Roberto Piva e Paulo Leminski. Foi descoberta Davi Arrigucci Jr., crítico literário e professor da USP, através de um poema publicado no jornal de São João da Boa Vista em 1965. A partir disso tornou-se amiga pessoal de nomes como Antonio Candido, além de ser entendida pelo círculo intelectual da época como revitalizadora da poesia brasileira, que revitalizaria ou renovaria o verso modernista.

A revolução tinha que continuar. O verso modernista estava feito e bem feito, mas não bastava mais. Sacrificar no altar do Novo o próprio verso modernista, que resultara, de um modo ou de outro, por caminhos e vieses múltiplos, na maior e melhor poesia brasileira, incluindo nomes como Carlos Drummond, João Cabral, Murilo Mendes, Ferreira Gullar e Vinicius de Moraes, como diz o poeta e crítico literário Luis Dolhnikoff, na introdução do livro.

A poesia de Orides Fontela é envolta em mitologia particular: por sua inspiração (descrito por ela mesma e usado como gênero do espontaneísmo ou da espontaneidade), por sua biografia intelectual (cursou filosofia na USP, tornando-a poeta-filósofa, ou criadora de uma poesia filosofante ou filosófica), e também pela dedicação ao budismo nos anos 1970 (reconhecido no viés metafísico-oriental de sua obra). Nada disso, porém, resiste minimamente aos fatos, ou seja, à linguagem de sua poesia. Citando novamente a introdução:

Como as palavras permanecem as mesmas, é por sua disposição que o estilo é construído. A disposição das palavras é: sintaxe. Não há nada de inovador nesta afirmação de Mallarmé — ele está sendo tão somente etimológico: sintaxe, do grego syntáxis, significa ordenação (táxis) conjunta (syn), ou seja, coordenação, organização, disposição. Daí se entende outra famosa afirmação de Mallarmé: Sou profunda e escrupulosamente sintaxeador. O poeta é um organizador, na verdade, um reorganizador das palavras. E um grande poeta, em consequência, é um renovador da sintaxe. Pois não se trata de meramente construir belas frases de medida e ritmo precisos, mas de fazer com as palavras o que a língua e a prosa correntes não fazem — sem, no entanto, tornar-se por isso obscuro. O próprio Mallarmé conclui que, por ser escrupulosamente sintaxeador, sua poesia é desprovida de obscuridade. A renovação criteriosa da sintaxe faz a poesia, e faz da poesia um ato de renovação compreensível da sintaxe. Sua maestria dá-se em cortes de frases, potencialização do abandono da métrica constante, na desembocadura a um prosaísmo (presente e evidente em Drummond, Bandeira, Mário de Andrade, entre outros).

Orides era também leitora de Heidegger: não como filósofo, mas como poeta em prosa. Mas sua aproximação entre poesia e filosofia é mais parecida com Wittgenstein. Seu primeiro livro, Transposição, fala da possibilidade de transporte entre as palavras e as coisas, e das coisas com o silêncio: voltada ao estar calado. Estes fatores entretanto tornariam sua obra minimamente popular. Basta comparar seu nome ao de seus contemporâneos, citados na abertura do texto. Uma das diferenças é que cada um, a seu modo, soube ou pôde mobilizar um menor ou maior círculo de cultores, o que não aconteceu com Orides.

Além disso, Dolhnikoff diz que Orides Fontela era ainda mais difícil no trato pessoal do que na própria poesia, como sua biografia demonstra. Se somado à secura da linguagem e aspereza da personalidade, tanto a popularidade possível a um poeta quanto sua presença crítica, humanamente  sensível ao trato ou destrato pessoal — e não apenas aos intangíveis estratos dos argumentos —, o relativo silêncio que hoje cerca, não sem ironia, a obra de uma das mais fortes e importantes poetas brasileiras contemporâneas, torna-se grandemente explicável, ainda que inversamente justificável.