A tragédia da mulher emancipada segundo Emma Goldman

01/12/2021 20:52:17
Editora Hedra
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Por Mariana Lins, tradutora e organizadora de Sobre anarquismo, sexo e casamento.

Sobre anarquismo, sexo e casamento
Emma Goldman

Para Goldman a emancipação feminina – iniciada com as mais doces esperanças da promessa da liberdade e igualdade para a mulher – simplesmente falhou em alcançar os seus fins. Pois se tal radiante promessa reservava à mulher um futuro em que se lhe seria possível dar a mais plena expressão a tudo o que no seu íntimo ansiaria por expressar-se, os resultados alcançados, ao contrário, subtraíram-lhe, mais uma vez, a fonte de onde nasce a felicidade que lhe é essencial. Numa crítica, mais do que radical, Goldman irá afirmar que o processo de emancipação da mulher converteu-se num lento e constante processo de embotamento da sua natureza, posto que sufocou o seu instinto de amor (que é, em última instância, o instinto sexual) e, por consequência, o seu instinto materno em nome de uma aparência digna e apropriada de mulher emancipada que, a despeito de toda a sua glória social, ocultaria uma vida interior vazia e morta. Pois a, segundo Goldman, excessivamente elogiada emancipação feminina concentrou-se quase que de modo exclusivo na obtenção de direitos e liberdades meramente externos, cunhando uma forma de mulher emancipada a partir de fora. Nesse sentido, ela estabelece uma analogia bastante curiosa: a mulher emancipada, especialmente aquelas encontradas nos chamados círculos intelectuais, lembra os produtos da arboricultura francesa com suas árvores e galhos em formato de arabesco, pirâmides, círculos e coroas de flores; de qualquer coisa, exceto das formas que seriam alcançadas através da expressão de suas qualidades internas (A tragédia da mulher emancipada, 1910).

Afinal questiona a anarquista: o que conseguiu a mulher com a sua emancipação? Em primeiro lugar, o sufrágio igualitário que, naquela época, ao menos no que dizia respeito aos Estados Unidos, se fazia presente em apenas alguns Estados – e, naturalmente, longe de ser reservado à mulher universal, estava circunscrito às mulheres brancas e pertencentes a uma determinada classe. 

A crítica de Goldman às sufragistas se confunde com luta de classe: ela denuncia o elitismo ralé que caracterizava o espírito de tais revolucionárias. Ao tratar das sufragistas, Goldman nos oferece o retrato de uma típica mulher branca da classe média estadunidense cuja autoproclamada emancipação de tão medíocre, só tornava mais lamentável a sua condição de submissa. Ela condena abertamente a estreiteza intelectual revelada no otimismo das sufragistas, para quem o sufrágio feminino abriria, conforme ironiza, as portas de toda vida, felicidade, alegria, liberdade, independência. Quando, de acordo com o seu diagnóstico, o problema é que a devoção cega ao sufrágio impediu que enxergassem a obviedade de que não há esperança de que a mulher com o seu direito de votar possa em algum momento algo como purificar a política. Obviamente, a sua oposição à causa do sufrágio feminino, como trata de deixar claro, não estava em nada relacionada à compreensão cretina de que a mulher não tem capacidade psicológica ou intelectual para a façanha do voto consciente. O que a ela combate é a concepção absurda, de que a mulher será bem-sucedida naquilo em que o homem falhou. Goldman desprezava absolutamente a bandeira das sufragistas de que a mulher seria como que dotada do poder purificar a política; para ela uma tal bandeira não passava de uma confirmação flagrante de que a feminista emancipada de ocasião continuava a se colocar no mesmo pedestal contra o qual o seu feminismo supostamente estaria a se opor. Eis o truísmo: se a mulher é um ser humano, ela está sujeita a todas as loucuras e erros humanos. E, nesse ponto, a perspicácia de Goldman não poderia ser mais afiada: Presumir que a mulher triunfará em purificar algo que não é passível de purificação, é creditar-lhe poderes sobrenaturais. Uma vez que a tragédia da mulher tem sido a de ser olhada como ou um anjo ou um demônio, a sua verdadeira salvação reside em ser colocada sobre a terra (O sufrágio feminino, 1910). Para a anarquista, a política tal como é simplesmente não pode ser purificada, uma vez a “corrupção na política não tem nada a ver [...] com a frouxidão moral das várias personalidades da política. Sua causa é totalmente material. A política é o reflexo do mundo empresarial e industrial, cujos lemas são: ‘Tomar é melhor do que dar’; ‘compre barato e venda caro’; ‘uma mão suja lava a outra’” (A tragédia da mulher emancipada, 1910).

Em segundo lugar, a emancipação teria oferecido a mulher a possibilidade de igualdade econômica para com o homem; isto é, ela passou a ter o direito de escolher a sua profissão e ofício. Contudo, Goldman faz atentar, mais uma vez, que uma  tal possibilidade estava igualmente circunscrita às mulheres das classes médias e altas. Até porque às mulheres das classes trabalhadoras nunca foi estranho o trabalho fora do lar, seja na condição de criada, empregada doméstica, camponesa, datilógrafa, operária, vendedora etc. Muito antes que as mulheres das classes médias  e altas atinassem para a relação entre emancipação e mercado de trabalho, as jovens da classe trabalhadora, constata a anarquista (que trabalhou, ela mesma como operária), já se encontravam doentes e exaustas da sua independência – o que inclusive surtia o efeito contrário: o de ver no casamento uma forma de se livrar da exploração do trabalho. Visão que, de todo modo, não passava de uma miragem, com a chegada ininterruptas dos filhos, o esgotamento físico e psíquico, o casamento cada vez mais desgastado e o orçamento cada vez mais precário.

Mas e no tocante à experiência das pouquíssimas mulheres que foram, no seu tempo, bem-sucedidas na empreitada de atingir a igualdade econômica e, portanto, bem-sucedidas em atingir o mesmo status profissional do que os homens? Ora, é justamente a essas que a nova tragédia estaria anunciada. Pois devido à mulher ter recebido uma educação desigual à dada ao homem tanto no que se refere ao passado, quanto ao presente, a consequência de uma tal empreitada, mesmo se bem-sucedida, é a de que no esforço para atingir uma tal igualdade, a mulher, em geral, é frequentemente forçada a exaurir toda a sua energia, a esgotar toda a sua vitalidade e sobrecarregar cada um de seus nervos de modo a atingir o valor de mercado. Além disso, relembra-nos Goldman, as mulheres em profissões de destaque como professoras, médicas, advogadas, arquitetas e engenheiras nunca são recebidas com a mesma confiança que os seus colegas homens, como tampouco costumam receber a mesma remuneração (A tragédia da mulher emancipada, 1910).

Note-se que essa formação desigual recebida por homens e mulheres, ainda que não desigual do ponto de vista da educação formal (escolar e universitária), era (e ainda é) desigual do ponto de vista emocional-sexual-moral. Nesse sentido, é que a anarquista faz atentar para o então chamado padrão duplo da moralidade entre homens e mulheres – padrão duplo que se desdobra em formas de educar completamente distintas e, com isso, em hábitos e costumes condizentes a mundos tão profundamente separados que homens e mulheres foram (e ainda são) transformados em seres, praticamente, alienígenas um ao outro, a ponto de a união amorosa entre ambos os sexos estar, como se por princípio, fadada ao fracasso (O sufrágio feminino, 1910). Entre seres estranhos um ao outro, moralmente divergentes um do outro no que diz respeito à sexualidade e ao amor, o desencontro sexual e afetivo não poderia ser mais absoluto. 

Por conta desse padrão duplo de moralidade, que em última instância serviria aos interesses da Propriedade Privada e à lógica da exploração, é que para Goldman não era exatamente o caso de considerar o homem como o responsável pela escravização da mulher. Não é verdade, escreve ela, que um homem profundo e sensível – não me refiro aqui a meros machos – difira de modo considerável de uma mulher profunda e sensível. Ele também busca a beleza e o amor, a harmonia e o entendimento (Mary Wollstonecraft: vida trágica e luta apaixonada pela liberdade, 1911).  Obviamente, ela reconheceu que o homem tem sido um tirano há tanto tempo que ele se ressente de qualquer violação do seu domínio, contudo advogou pela universalidade, insistiu na concepção de que a liberdade da mulher está intimamente relacionada à liberdade do homem, e para o fato de que uma criança se nascida na liberdade precisa do amor e devoção de todos ao seu redor, independentemente do sexo; conforme sua terminologia, uma vez que a discussão sobre o gênero, vale notar, não era ainda pauta na sua época – muito embora Goldman tenha se colocado explicitamente ao lado do movimento pelos direitos civis dos homossexuais e transexuais que então ganhava força nos Estados Unidos da época e defendido publicamente Oscar Wilde da condenação pelo crime de sodomia (vide nesse sentido o seu escrito Louise Michel, uma refutação, 1923). Seja como for, é preciso destacar que com essa sua ênfase na universalidade, ela não pretendia algo como perdoar o homem; o que inclusive também tratou de deixar claro: A sentença frequentemente citada de Madame Staël, "entender tudo significa perdoar tudo", nunca exerceu um apelo especial sobre mim; tem o odor do confessionário; perdoar o semelhante transmite a ideia de superioridade farisaica. Entender o semelhante é suficiente (A tragédia da mulher emancipada, 1910). O seu objetivo era simplesmente alertar para que em vez de uma oposição entre os sexos, se mantivesse o foco na luta pela verdadeira emancipação que para ser particular, é preciso que seja antes universal. 

Segundo o diagnóstico de Goldman, problema é o próprio ideal de mulher emancipada, ao menos tal como entendido pela maioria dos seus seguidores, não deixa espaço para o amor e o êxtase sem limites que estão enraizados nas emoções mais profundas de uma mulher verdadeira, amante e mãe, quando na sua liberdade. Ao contrário. Conforme sugerido anteriormente,  na tentativa de se dotar de uma respeitabilidade profissional e/ou política impecáveis, a mulher emancipada supostamente bem-sucedida se transformou, via de regra, numa espécie de autômata profissional, dotada de uma rigidez tão artificial que fez dela uma casta compulsória, diante de quem a vida, com suas tristezas e suas alegrias passa sem arrebatar a sua alma (A tragédia da mulher emancipada, 1910). Uma emancipação que implique o medo de amar um homem que não lhe seja igual socialmente; que implique o medo de que o amor irá roubar a sua liberdade e independência ou o horror de que a maternidade a impedirá de exercer plenamente a profissão (o que de todo modo reconhecia como um problema real na vida das mulheres no exercício de funções mais bem remuneradas) – é um ideal de liberdade demasiado limitado. 

Para Goldman, a liberdade é acima de tudo doar-se sem reservas, é amar e ser amado. Não há amor que não seja livre, da mesma forma que não pode haver emancipação sem amor. Se o amor não sabe como dar e receber sem restrições, então não é amor, mas uma transação comercial (A tragédia da mulher emancipada, 1910). Daí que defina o verdadeiro rebelde como aquele que é consumido pelo fogo da compaixão e simpatia por todo sofrimento e por todos os seus camaradas, como aquele cuja tragédia, da qual tampouco pode escapar, é pelo menos a que conduz ao destino mais elevado; sendo esta outra tragédia a da impossibilidade de receber o amor que a sua alma rebelde anseia e que, como se por transbordamento, está o tempo todo a doar. Não podemos esquecer, em nenhum momento, que estamos aqui diante de uma radical no sentido mais próprio do termo. Para quem o amor é sentido como a ânima que move todo aquele que anseia pela liberdade, que o faz arder e se lançar, caso das mulheres heroicas da revolução russa, aos feitos mais ousados e seguir para a morte ou para o exílio com um sorriso nos lábios (Mulheres heroicas da revolução russa, 1925). Que tenha sido chamada de superficial por militar, em última instância, em nome de algo tão simples, ao mesmo tempo em que utópico, porque supostamente impossível, é talvez prova de um entendimento superficial, ainda que possa ser sofisticado, do que é verdadeiramente capaz de nos satisfazer e alegrar no breve período em que somos incendiados pelo sopro da vida. 

Dito isto, podemos enfim entender o seu conselho paradoxal acerca da necessidade a toda mulher que realmente deseja ser livre de emancipar-se da emancipação.