A escravidão é muito mais terrível para as mulheres

04/03/2022 20:24:36
Editora Hedra
0 Comentário


Outro laço com a vida, de Harriet Ann Jacobs

Incidentes da vida de uma escrava, escritos por ela mesma
Harriet Ann Jacobs


Eu não entrava na casa do meu senhor desde o nascimento do meu filho. O velho ficava colérico por eu não estar ao seu alcance imediato, enquanto sua esposa jurava por tudo o que há de bom no mundo que me mataria caso eu voltasse, e ele não duvidava da sua palavra. Às vezes, ele se mantinha afastado por um tempo, então voltava para renovar o velho discurso esfarrapado sobre a sua paciência e a minha ingratidão. Ele se esforçava, desnecessariamente, aliás, para me convencer que eu havia me rebaixado. O velhaco peçonhento não tinha por que discorrer sobre aquele tema. Eu já me sentia humilhada o bastante. Meu bebê inocente era testemunha constante da minha vergonha. Eu me mantinha em desprezo silencioso enquanto ele falava sobre como eu havia destruído a boa opinião dele sobre mim, mas eu vertia lágrimas de amargura ao saber que não era mais digna de ser respeitada pelos bons e pelos puros. Ah! Mas a escravidão ainda me prendia em suas garras venenosas. Eu não tinha nenhuma chance de ser respeitável, nenhuma oportunidade de levar uma vida melhor.

Às vezes, quando meu senhor descobria que eu ainda me recusava a aceitar o que chamava de ofertas generosas, ele ameaçava vender meu filho.

— Quem sabe assim você aprende a ser humilde — ele dizia.

Humilde, eu! Eu já não estava no chão? Mas a ameaçava deixava meu coração dilacerado. Eu sabia que a lei dava a ele o poder de cumprir a ameaça, pois os escravistas haviam sido espertos o suficiente para declarar que a “o filho segue a condição da mãe”, não do pai, garantindo que a libertinagem não interferiria com a avareza. Essa reflexão fez com que eu abraçasse meu filhinho com ainda mais força contra o peito. Minha mente se enchia de imagens horríveis quando eu lembrava do risco dele cair nas mãos de um traficante.

— Quem sabe assim você aprende a ser humilde — ele dizia.

Humilde, eu! Eu já não estava no chão? Mas a ameaçava deixava meu coração dilacerado. Eu sabia que a lei dava a ele o poder de cumprir a ameaça, pois os escravistas haviam sido espertos o suficiente para declarar que a “o filho segue a condição da mãe”, não do pai, garantindo que a libertinagem não interferiria com a avareza. Essa reflexão fez com que eu abraçasse meu filhinho com ainda mais força contra o peito. Minha mente se enchia de imagens horríveis quando eu lembrava do risco dele cair nas mãos de um traficante.

— Ah, meu filho! — eu dizia, chorando sobre ele. — Talvez eles o abandonem para morrer em uma cabana gelada e depois o atirem em um buraco, como se fosse um cachorro.

Quando o Dr. Flint descobriu que eu seria mãe mais uma vez, ele se exasperou além da conta. Ele saiu de casa às pressas e voltou com uma tesoura. Eu tinha um cabelo muito bonito e delicado e ele sempre reclamava do meu orgulho por penteá-lo com tanto esmero. Ele cortou meu cabelo rente à cabeça, gritando e esbravejando o tempo todo. Eu retruquei, ele me bateu. Alguns meses antes, ele havia me atirado escada abaixo em um acesso de fúria, causando ferimentos tão graves que passei muitos dias incapaz de me virar na cama.

— Linda, juro por Deus que nunca levantarei minha mão para você novamente — ele dissera então, mas eu sabia que ele esqueceria a promessa.

Após descobrir minha situação, era como se ele fosse um demônio das profundezas, sempre agitado. Ele me visitava todos os dias, me sujeitando a insultos que pena nenhuma poderia descrever. Eu não os repetiria nem se pudesse; eram muito baixos, muito revoltantes. Eu tentei manter minha avó sem saber deles o quanto pude. A vida dela já tinha tristezas o suficiente sem o fardo dos meus próprios problemas. Quando viu o doutor me tratar com violência e escutou ele berrar palavrões que deixariam paralisada a língua de qualquer homem, no entanto, ela não conseguiu mais se conter. Era natural e maternal que ela tentasse me defender, mas isso só piorou a situação.

Quando me disseram que o bebê recém-nascido era uma menina, a dor no meu coração foi maior do que nunca. A escravidão é terrível para os homens, mas é muito mais terrível para as mulheres. Além do ônus comum a todos, elas ainda têm agravos e sofrimentos e humilhações especialmente seus.

O Dr. Flint jurou que me faria sofrer até meu último dia por esse novo crime contra ele, como o chamava; e enquanto me teve em seu poder, ele cumpriu sua palavra. No quarto dia após o nascimento da minha filha, ele entrou no meu quarto de repente e mandou que eu me levantasse e levasse o bebê até ele. A ama que cuidava de mim saíra do quarto para preparar um prato e eu estava sozinha.

Não havia nenhuma alternativa. Eu me ergui, peguei o bebê no colo e atravessei o quarto até onde ele estava.

— Agora fique aí até eu mandar você voltar! — ele ordenou.

Minha filha se parecia muito com o pai e com a falecida Sra. Sands, sua avó. Ele percebeu o fato; enquanto estava parada à sua frente, tremendo de fraqueza, ele despejou sobre mim e sobre a pequenina todos os xingamentos e palavrões nojentos que conseguia imaginar. Nem a avó no túmulo escapou das suas grosserias. Em meio àqueles impropérios, eu desmaiei aos seus pés. Isso fez com que ele recobrasse os sentidos. Ele tirou a criança dos meus braços, colocou-a na cama, jogou água fria no meu rosto, me ergueu e me chacoalhou com toda a força para que eu me recuperasse antes que alguém entrasse no quarto. Foi então que minha avó entrou, o que fez com que ele saísse às pressas da casa. Eu sofri as consequências desse tratamento, mas implorei aos amigos que me deixassem morrer em vez de mandar chamar o doutor. Não havia nada que eu temesse tanto quanto a sua presença. Minha vida foi poupada, o que me deixou contente, pelo bem dos pequeninos. Se não fosse por esses laços com a vida, eu teria acolhido a liberdade da morte, apesar de ter vivido ainda por apenas dezenove anos.

Sempre me agoniou saber que meus filhos não tinham direito legal a um sobrenome. O pai ofereceu o seu, mas, mesmo que tivesse desejado aceitar a oferta, não ousaria fazê-lo enquanto meu senhor vivesse. Além do mais, eu sabia que ele não seria aceito no seu batismo. Pelo menos a um prenome eles tinham direito, então foi decidido que meu menino levaria o nome do nosso querido Benjamin, que agora estava tão longe demais.
 
Minha avó pertencia à igreja e sempre desejou ardentemente que as crianças fossem batizadas. Eu sabia que o Dr. Flint nos proibiria e sequer arriscava tentá-lo. Mas a sorte me sorriu. Um paciente o chamou para uma consulta fora da cidade e ele foi forçado a se ausentar no domingo.

— Chegou a hora — minha avó anunciou. — Vamos levar as crianças para a igreja e pedir para batizá-las.

Quando entrei na igreja, lembrei-me da minha mãe e meu ânimo se moderou. Ali ela me apresentara para o batismo, sem nenhum motivo para se avergonhar. Ela era casada e tinha os direitos legais que a escravidão permite aos escravos. Os votos eram sagrados para ela, pelo menos, e ela nunca os violara. Fiquei contente com a ideia de que ela não estava viva para ver as circunstâncias em que seus netos eram apresentados para o batismo. Por que a minha sina fora tão diferente da minha mãe? O senhor dela morrera quando ela era pequena, então ela permaneceu com a senhora até casar. Minha mãe nunca esteve nas mãos de um senhor, o que permitiu que escapasse dos males que recaem sobre quase todos os escravos. Quando meu bebê estava prestes a ser batizado, a ex-senhora do meu pai se aproximou e sugeriu que a menina recebesse o seu nome. A esse prenome adicionei o sobrenome do meu pai, ao qual ele próprio não tinha nenhum direito legal, pois meu avô paterno fora um cavalheiro branco. Ah, como se emaranha a genealogia da escravidão! Eu amava meu pai, mas era uma humilhação ter que dar o seu nome aos meus filhos.

Quando saí da igreja, a ex-senhora do meu pai me convidou para acompanhá-la até em casa. Lá, ela colocou uma corrente de ouro ao redor do pescocinho da minha filha. Eu agradeci a bondade, mas desgostei do emblema. Eu não queria corrente alguma ao redor da minha filha, mesmo que seus elos fossem de ouro. Como eu rezava para que ela nunca sentisse o peso das correntes da escravidão, cujo ferro se crava na alma!