Excertos de "1964: do golpe à democracia"

O livro "1964: do golpe à democracia" reúne textos e depoimentos inéditos de vários protagonistas da história brasileira recente, e também dos principais pensadores políticos contemporâneos. Além de intelectuais que vivenciaram o golpe da 1964 e os “anos de chumbo”, e hoje trabalham na restauração do sentido histórico dos acontecimentos e na indicação dos responsáveis pelos atos da ditadura militar, também comparecem pesquisadores que, em trabalhos recentes, trazem novas perspectivas para o debate.


PAUL SINGER:

"O regime teve grandes diferenças dentro dele. Tanto assim que o [general] Geisel depois resolveu acabar com a ditadura militar de cima para baixo. E fez isso. A 'linha dura' resistiu, houve quase uma guerra civil no Brasil entre alas totalmente opostas. A 'linha dura' jamais teria acabado com a ditadura militar, achavam que deveria ser assim mesmo, mas grande parte dos militares queria a volta da democracia. Tanto que, por maioria, acabaram entrando na 'abertura', ela foi lenta mas aconteceu, a anistia total e a volta da democracia".


FERNANDO HENRIQUE CARDOSO:

"Para entendermos como foi possível o golpe de 64 nas consequências que teve, é preciso lembrar de pelo menos três vertentes: primeiro que as Forças Armadas no Brasil, desde a República, sempre tiveram um papel intervencionista, sempre. [...] Outra vertente importante para entender o que aconteceu é o jogo internacional. O golpe de 1964, na forma que tomou, só se entende melhor porque estávamos na Guerra Fria. Hoje é difícil imaginar o que era a Guerra Fria. Uns estão para cá, outros estão para lá. Quem não está com os Estados Unidos está com a Rússia, com a União Soviética, na simbologia interna. O “perigo comunista” era isso o tempo todo. [...] Em terceiro lugar, a qualidade da nossa democracia sempre foi frágil."


MARCOS NAPOLITANO:

"Levar a sério o corte que representaram as duas últimas décadas do século XX no país, levar seriamente em conta a redemocratização, exige uma nova maneira de pensar temas clássicos do pensamento social brasileiro, em especial aquele que é aqui tomado como central, o tema do conservadorismo. Porque o ritmo paquidérmico da redemocratização leva muitas vezes à tentação de ligações por demais imediatas com formulações clássicas, elaboradas em momentos radicalmente distintos da história do país."


ISMAIL XAVIER:

"No momento do Golpe de 1964, os jovens do Cinema Novo formavam um grupo que já assumia certo protagonismo no cinema brasileiro. O movimento emergiu no final dos anos 1950, embalado pelo exemplo dado por cineastas como Nelson Pereira dos Santos, Roberto Santos e Alex Viany que haviam trazido, a partir de 1954, a inspiração do neorrealismo italiano para um cinema de esquerda que se inseriu nos debates políticos da década."


ISAURA BOTELHO:

"A minha entrada na militância se deu em função de minha formação cristã e de um senso difuso da igualdade como um valor. Não é à toa que minha afinidade foi com a Ação Popular (ap) [...]. Tudo começa quando eu tinha 16 anos, minha mãe era professora da Universidade de Brasília, nós morávamos no campus [...] Isso foi no início de 1967, eu ainda tinha 16 anos. Nesse período começam as manifestações estudantis e eu conheço aquele que era a grande liderança (eu não sabia, nunca o tinha visto na minha vida) da UnB, Honestino [Monteiro] Guimarães."]


JOSÉ ARTHUR GIANNOTTI:

"Não estou brincando com a lógica ao insistir que a política democrática depende de uma boa formação da oposição entre aliados e adversários, que bloqueie a contradição entre amigos e inimigos. [...] O contradizer político abre a clareira da luta e desenha os inimigos como aliados e adversários. Contradizer que tem sempre no horizonte a eliminação do oponente configurado como inimigo."


JOSÉ CARLOS DIAS:

"Uma experiência terrível foi trabalhar na defesa de memórias, pois defendemos muitos mortos e desaparecidos. Tínhamos sido adestrados a defender a liberdade e nos vimos obrigados a defender memórias. Eu tenho no meu passado vários clientes que foram mortos e de quem procurei descobrir de todas as formas se estavam vivos, onde estavam presos, de que forma haviam sido presos."

"Eu defendi o Rodolfo Konder, que tinha sido companheiro de Herzog e que foi testemunha dos últimos instantes de Herzog, e que se tornou meu cliente, foi ao meu escritório, e eu fechei as portas do escritório na presença de várias personalidades [...] e dos meus colegas de escritório. E durante quatro horas Rodolfo Konder prestou um depoimento impressionante."

PAULO SÉRGIO PINHEIRO:

"No que diz respeito à repressão durante o período do regime do golpe de 1964, chama a atenção que nem tudo foi inovação, nem tudo foi criatividade. A repressão durante a ditadura militar se baseou nos aparatos policiais que haviam sido implantados desde a ditadura do Estado Novo, 1937-45. Pois é claro que o único precedente que pode ser comparado, no Brasil no século XX, com o regime de 1964, era o Estado Novo, e na realidade muitas das estruturas policiais em que vão atuar não foram criadas, já existiam. Nos anos 1930 os DOPS já estavam fundados, o DOPS de São Paulo foi criado em 1924."

Compartilhe