«E o corvo disse: 'Nunca mais!'»


A importância de Edgar Allan Poe para a ficção como a conhecemos é imensa. Poe foi um dos primeiros escritores americanos de contos e a ele é atribuído a invenção do gênero ficção policial. Além disso, ele contribuiu enormemente ao emergente gênero de ficção científica da época. Seu trabalho foi posteriormente inspiração para outros grandes escritores, como Arthur Conan Doyle e Jules Verne. Entre seus admiradores brasileiros estão Machado de Assis e Augusto dos Anjos.

De estilo aventureiro e boêmio, sua vida pessoal sempre foi marcada pela incapacidade de seguir regras e consumo excessivo de bebidas alcoólicas, hábito este que se agravou após a morte da sua esposa, em 1847, o que acabou por piorar ainda mais sua instabilidade emocional.

Poe morreu no dia 07 de outubro de 1849, aos 40 anos, após ser encontrado na sarjeta das ruas de Baltimore alguns dias antes em roupas que não eram suas e em estado de delirium tremens, um quadro psicótico associado à abstinência de álcool por usuários gravemente dependentes.

Curiosamente, seguindo a atmosfera de seus contos, sua morte permanece até hoje com certa aura misteriosa. Poe ficou internado por quatro dias no hospital, mas nunca conseguiu estabelecer um discurso coerente o suficiente para explicar o que havia acontecido com ele. Na noite anterior à sua morte, foi reportado que ele chamou por “Reynolds” diversas vezes, apesar de ninguém nunca ter identificado a quem ele se referia. Suas últimas palavras, alegadamente, teriam sido “Senhor, por favor, ajude minha pobre alma”.

A causa precisa da morte de Poe ainda é desconhecida, o que deu origem a diversas teorias. A maior parte dos estudiosos afirma que ele morreu em decorrência do abuso de álcool crônico que permeou sua vida. Outras hipóteses sugerem sífilis, meningite, tumor cerebral, diabetes, apoplexia, saturnismo, cólera, raiva, etc.

Durante o mês de outubro, suas obras estarão em destaque no nosso catálogo, juntamente com outros títulos de mestres do terror. Confira abaixo um excerto do poema mais conhecido de Poe, O corvo:

[…]

Diante da ave feia e escura,

Naquela rígida postura,

Com o gesto severo, — o triste pensamento

Sorriu-me ali por um momento,

E eu disse: "O tu que das noturnas plagas

Vens, embora a cabeça nua tragas,

Sem topete, não és ave medrosa,

Dize os teus nomes senhoriais;

Como te chamas tu na grande noite umbrosa?"

E o corvo disse: "Nunca mais".

Vendo que o pássaro entendia

A pergunta que lhe eu fazia,

Fico atônito, embora a resposta que dera

Dificilmente lha entendera.

Na verdade, jamais homem há visto

Cousa na terra semelhante a isto:

Uma ave negra, friamente posta

Num busto, acima dos portais,

Ouvir uma pergunta e dizer em resposta

Que este é seu nome: "Nunca mais".

No entanto, o corvo solitário

Não teve outro vocabulário,

Como se essa palavra escassa que ali disse

Toda a sua alma resumisse.

Nenhuma outra proferiu, nenhuma,

Não chegou a mexer uma só pluma,

Até que eu murmurei: "Perdi outrora

Tantos amigos tão leais!

Perderei também este em regressando a aurora."

E o corvo disse: "Nunca mais!"

[...]

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