Crack para além do senso comum


Errantes entre os horrores persecutórios da noia, homens e mulheres, menores e maiores de idade, entregam-se pelos mais variados motivos à experiência do crack, nas ruas dos principais centros urbanos brasileiros, no quarto dos fundos depois da rotina de trabalho ou estudo, no meio da mata ou esquinas dos recantos interioranos, em ambientes confortáveis criados para o consumo, dos becos abarrotados aos cômodos vazios de grandes mansões.

A mídia e o senso comum, longe de auxiliarem no combate ao crack, pesam ainda mais sobre as vidas de mais de 350 mil pessoas só no estado de São Paulo. Via de regra, estigmatizam ainda mais os usuários que, dominados pelo vício e sob pressões diversas, foram lançados à realidade da adicção.

Nosso cruel imaginário desenhou “zumbilândias” e nelas aprisionou os usuários da “raspa do diabo” para os quais são reservadas condenação, perdição e morte, violência policial, internação e abstinência compulsórias.

Em Crônicas do Crack, Luis Marra, médico psiquiatra com mais de 15 anos de experiência com usuários de drogas psicoativas, particularmente de crack, na Zona Oeste de São Paulo, força o véu que oblitera a realidade dos adictos. Marra força, além disso, seus leitores a verem além do estigma e das generalizações, das falácias religiosas e governamentais, da burrice das classes médias e veículos de informação de massa.

Os relatos de experiências, de cunho literário, mas pouco ou nada ficionais por serem baseados em pessoas reais (com quem o médico teve contato durante sua jornada), dão voz a vários daqueles “usuários malditos”, levando-nos a refletir sobre as políticas de estado e nossas próprias opiniões sobre a droga.

Depois da leitura de Crônicas do crack, fica a sensação de que estamos muito aquém da forma ideal de se lidar com o problema social que se tornou o crack.

Estima-se que desde sua chegada ao Brasil nos anos 1970, 1, 8 milhão de pessoas já fizeram uso ou ao menos experimentaram crack ou similares -- quase 1 milhão apenas no ano passado. Esse número triplica quando sob análise está também a cocaína. O custo mais baixo do primeiro, embora consumido às pedras e gere débitos consideráveis, levou especialistas a defenderem inclusive a legalização da segunda em países de primeiro mundo.

Lemas como “Escolha a vida” foram comprovados falhos diante da natureza do uso. Fica claro que a vida dos usuários levaram-nos ao perigoso consumo, e não a abdicação do dom precioso. Tampouco a violência institucional e social sobre aqueles que, agressivos e vulneráveis, já são feitos reféns do próprio vício, da estigmatização familiar, das péssimas condições de vida, do crime organizado e tráfico.

A leitura de Crônicas do Crack é de suma importância neste momento, com promessa do olhar crítico do especialista e observador/ testemunha cuidadoso sobre a questão. Mais do que elaboração diletante, a obra de Marra se transforma em instrumento para avançarmos à solução deste grave problema de saúde pública que deve implicar de todos a responsabilidade social.

O lançamento do livro acontece dia 17/08 (quinta-feira), às 19h30, na Saraiva do Shopping Pátio Higienópolis.

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