A vida, mesmo amarga, é sorte e privilégio

O Antricristo percorre a URSS do início do século XX visto pelos locais como judeu forasteiro

Por Suzana Salama

 23/03/2020

Banner Image

Além de autor de Salmo — romance-meditação sobre os quatro flagelos do senhor, Friedrich Gorenstein foi roteirista de filmes como Solaris e Andrei Rublióv, dirigidos por Andrei Tarkóvski. Judeu russo nascido em Kíev, construiu em 1975 uma das tramas mais complexas e originais sobre a questão judaica e a relação com a ordem da sociedade russa, em ficção alternada com trechos do antigo testamento. A figura principal do livro é Dã, a Áspide, o Antricristo, enviado pelos céus à União Soviética do início do século XX, que percorre seu caminho na terra visto pelos locais como judeu forasteiro.

A fome de 1930, o nazismo e a Segunda Guerra Mundial, a evacuação, o pós-guerra e a censura stalinista de 1950 são pano de fundo histórico enquanto os quatro flagelos divinos — fome, guerra, luxúria e doença  acometem o país, enviados pelos céus através do Anticristo, sempre apontado no livro como filho de Deus e irmão de Cristo. Retiradas da Bíblia, as profecias se encaixam perfeitamente nos acontecimentos concretos. Gorenstein não recria em Salmo episódios bíblicos, usa-os para ilustrar a vida na União Soviética. Aberto por um preâmbulo filosófico-religioso, cada capítulo funciona como uma parábola, dedicada a um flagelo. Através de enredo cinematográfico, personagens dão vazão à punição divina enquanto o Anticristo cruza seu caminho. Compreendido pelos ideólogos cristãos como inimigo de Cristo — que veio para abençoar, salvar e perdoar os pecadores — o Anticristo de Gorenstein veio para amaldiçoar os pecadores e salvar suas vítimas. Em Salmo, Cristo e Anticristo, apesar das diferenças, se completam: são irmãos, e não inimigos.

Em Parábola do irmão perdido, surgem os flagelos da fome e luxúria. É descrita em 1933 a vida da mendiga Maria, da vila de Chagaro-Petróvskoie, durante a coletivização, quando surgiu na União Soviética o golodomor (morte pela fome em tradução literal), época em que produtos agrícolas eram expropriados por grupos especiais (Prodotriády) deixando camponeses em situação precária. A Parábola dos suplícios dos ímpios aborda a punição da espada: Ánnuchka vive em 1940 em Rjév, norte da Rússia. A guerra alcança-a, e no lugar do poder soviético vem o alemão. Com a mãe e o irmão, Ánnuchka foge para pequena aldeia, onde todos adoecem — e a menina vai parar num orfanato durante a época de evacuação. Em Parábola do adultério a protagonista é Vera, mãe da família Kopóssov, de Bor, às margens do Volga. Época de esperança na URSS, no pós-guerra de 1948, Vera se vê apaixonada pelo Anticristo, que por meio do relacionamento foi atingido pelo terceiro flagelo, a luxúria.  A Parábola da doença do espírito, fala de Aleksei Ívolguin, judeu de sobrenome original Katz, comprado por seu pai. Em 1952, ano da perseguição dos cosmopolitas  intelectuais judeus acusados de não serem leais ao poder soviético  e dos criminosos de jalecos brancos — médicos judeus acusados de matarem os líderes da nação, aludido também em Vida e destino, de Vassíli Grossman , Ívolguin teme ser preso a qualquer momento por trabalhar como crítico literário e ser judeu.

A contínua angústia humana junto à instabilidade e dificuldade de sobrevivência une as quatro parábolas. Enviado por Deus como testemunha das atrocidades praticadas pelos pecadores e responsável pela aplicação dos quatro flagelos, ao Anticristo resta apenas viver essas histórias enquanto segue seu caminho na Rússia de 1930 a 70. Intocável às investidas humanas, Dã permanece são frente ao ódio que lhe é canalizado: não por ser o Anticristo, mas por ser judeu. Pávlik, um bêbado da cidade de Rjév, com quem topa na segunda parábola, ilustra a questão judaica na Rússia:

(...) quando Dã passou pelo homem, este o fitou na face como se o conhecesse.

— Credo, um jid, que ódio... Jid...

O homem russo simples não pronuncia essa palavra a todo momento, mas apenas em casos extremos. Costuma pronunciar jid com gosto, como se mordesse uma maçã suculenta e crocante. A palavra judeu também é útil para limpar a garganta que ficou rouca de ódio ou exprimiu muita alegria. Mesmo assim, não se pode compará-la à jid... Não há na palavra judeu aquele quê de malícia, de originalidade, que distingue um cálice de vodca de uma caneca de kvás.

Ou na triste constatação ao se deparar com Sulamite na Parábola dos suplícios dos ímpios, menina judia morta e jogada numa vala, quando assistiu à cena perto de Minsk, ao lado de um judeu que lamentava sua incompreendida origem:

(...) ele se viu ao lado de um sujeito da tribo de Efraim, pois Dã sabia a que tribos as pessoas pertenciam, mesmo que elas mesmas ignorassem. E esse homem, sábio e filósofo, caminhando para o túmulo, disse com pudor e afobação:

— Nosso povo deveria ter ido embora há muito tempo; somos como uma visita abusada que ficou tempo demasiado na casa dos outros povos e agora é posta para fora à força e com humilhação... Nós, judeus, somos um povo ruim e eu sinto nojo de mim mesmo...

E Dã, a Áspide, o Anticristo, disse:

— Quem está nos expulsando e de onde? Por acaso o Senhor nos expulsa do Éden? Por acaso os santos anjos nos expulsam do céu? Não, nós, pecadores, somos expulsos por pecadores decaídos de um mundo decaído... Olhemos em volta. O adultério não seria um pecado deste mundo? E a traição? A filosofia indecente? A reza dissimulada? Em disputas entre irmãos, matamos nossos próprios profetas, de Jeremias a Jesus, mas será que isso é algo raro neste mundo? Quantos libelos de sangue, quantas lendas maldosas podem ser criadas sobre outras nações que destruíram seus próprios justos em disputas entre irmãos? E que culpa em particular nos deve ser imposta? Por que antes de sermos colocados porta afora deste mundo decaído, mas habitável, eles nos arrancam tudo e ficam com o que temos de melhor? Quando estivermos em outro mundo, iremos adquirir novamente um destino histórico e outros bens.

Dã, a Áspide, o Anticristo, judeu assim como seu irmão Cristo, passou pela terra castigando pecadores entre falantes da língua russa durante o século passado. Salmo — romance-meditação sobre os quatro flagelos do senhor é uma ficção minuciosa e bem construída em cima da história dos soviéticos, que traz à tona questões ainda mais profundas do que a própria precariedade vivida. O ódio nacional aos judeus gerou canções folclóricas satíricas, as tchastuchkas, que incentivavam pogroms na Rússia desde o final do século XIX (Bata nos jides, salve a Rússia). Mas é a rejeição à própria identidade que Gorenstein castiga, como o sujeito próximo a Ívolguin na quarta parábola, pertencente à tribo de Efraim¹ e que sente vergonha e medo de sua identidade judaica. O romance entretanto termina com nota positiva: Qualquer vida e qualquer destino, mesmo uma vida amarga e um destino cruel, quando passa, deve se constituir num salmo. Louvar ao Senhor por ela ter acontecido, diferentemente das vidas que não nasceram e dos destinos que não aconteceram. Qualquer vida, mesmo amarga, é uma sorte e um privilégio.

¹ Pela tradição bíblica, o antigo Israel era estruturado por confederação de dozes tribos, dos doze filhos de Jacó: Rúben, Simeão, Levi, Judá, Dã, Neftali, Gad, Aser, Issacar, Zabulon, José e Benjamim. Efraim e Manassés, filhos de José, deram origem a duas tribos, no lugar das de Levi e de José.

Relacionado a 

Salmo — romance-meditação sobre os quatro flagelos do senhor

Friederich Gorenstein

Kalinka

Gorenstein, escritor, dramaturgo e roteirista de Andrei Tarkóvski, sem dúvida escreveu um dos romances mais complexos da literatura mundial. Como já o havia feito Mikhail Bulgákov em Mestre e Margarida, surge na realidade soviética um enviado do céu: este enviado é Dã, o Anticristo, que aparece entre falantes da língua russa.

DESCUBRA mais

Ver também


Inspiração nordestina

Patativa do Assaré


Crônicas do crack

Luis Mara


Crônicas do crack

Luis Mara


Crônicas do crack

Luis Mara