Até que grau a vida precisa da história?

Por André Itaparica, tradutor.


Para que História? Essa é a pergunta que o então jovem professor de filologia da Universidade da Basileia, Friedrich Nietzsche, procura responder em seu terceiro livro publicado, Sobre a utilidade e a desvantagem da história para vida (1874), importante obra que ganha agora uma nova tradução, direto do alemão, com introdução e notas.

Refletindo sobre o caráter fortemente historiográfico das ciências humanas de sua época, Nietzsche acaba por escrever um profundo ensaio sobre a necessidade que o homem possui de lidar com o passado, por ser marcado pela memória e pelas experiências vividas, e da importância da relação entre conhecimento e vida. A ciência histórica, para Nietzsche, não pode ser ignorada, mas deve ser praticada tendo em vista o presente, e mais ainda, o porvir, para que o erudito não se torne um “coveiro do presente”.

Com uma prosa rica e poética, o futuro autor de Assim falou Zaratustra não se limita a criticar a cultura histórica de sua época, mas mostra como ela favorece uma espécie de conhecimento baseado na erudição vazia e numa reverência ao passado que não permite visualizar horizontes mais amplos. Por isso, o critério para a realização do saber histórico deve ser o estímulo para o surgimento de uma cultura autêntica, que signifique o florescimento do que há de mais vital e criador nas expressões de um povo.

Como se vê, os temas de Sobre a utilidade e a desvantagem da história para a vida transcendem em muito o debate puramente acadêmico, pois não se trata simplesmente de analisar uma disciplina, a História, mas de realizar uma análise dos objetivos do conhecimento científico e de sua relação com a cultura. E nisto reside a atualidade da obra: numa época como a nossa, de extrema especialização e de divórcio entre o conhecimento científico e os anseios da sociedade, Nietzsche milita para que não só as ciências, mas também as artes, não estejam desvinculadas do propósito de elevação de uma cultura, menosprezando a ideia do conhecimento como um fim em si mesmo e da arte como simples entretenimento.

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