«Anarco. Gay. Um hino à matéria.»


Hubert Fichte foi um autor de interesses bem variados, que giravam sobretudo em torno de sua própria situação e de suas obsessões – tendo crescido como meio-judeu, homem gay na Alemanha pós-fascista, ele amava as culturas africanas e afrodiaspóricas, e via ainda assim a impossibilidade de superar as limitações da colonialidade, das formas de conhecimento estabelecidas da antropologia e da etnologia e da política supostamente antirracista. Fichte se interessava pela resistência sem violência, pela luta política e pelo turismo, sobretudo o turismo sexual.

O seu Explosão é o volume VII de A história da sensibilidade. Ele apresenta diversas viagens do alter ego de Fichte, o escritor Jäcki, e sua companheira, a fotógrafa Irma (ou seja, Leonore Mau), sobretudo ao Brasil, mas também à Argentina, ao Chile e às Ilhas da Páscoa. O espaço narrado se estende da primeira viagem ao Rio de Janeiro, em 1969, à descrição de uma longa estada nos anos 1971 e 1972 sobretudo em Salvador, na Bahia, até a volta ao Brasil nos anos de 1980, sobretudo a São Luís do Maranhão e outros lugares no Norte do país.

Os alemães estão em destaque na Hedra: em junho lançamos Sobre a utilidade e a desvantagem da história para a vida, de Nietzsche, e agora é a vez de Fichte. O lançamento de Explosão, que está sendo organizado pelo Goethe-Institut Brasilien, acontece no Dia do Tradutor (30/09), na Casa das Rosas. Mais informações em breve.

Confira um trecho do capítulo inicial de Explosão:

Um véu de espuma do mar.

Dez metros de altura.

Pareceu a Jäcki. O sol o atravessava.

Os arranha-céus soçobravam.

Os carros buzinavam.

A onda se abateu, indo abaixo.

A seguinte borrifou alto, entre os prédios.

Essa era Copacabana – uma rua principal entupida, cheia de fumaça de escapamento, que tinha o nome da virgem Maria, africanos nus e molhados, índios nus e brilhosos, portugueses nus e cobertos de pérolas de suor, microssungas e fios-dentais estufados, pranchas de surfe na neblina azul, negra. Entre os ônibus uivava a canção de um epígono de Aznavour, cantando a sinceridade e a floresta virgem. E, ao final de cada garganta de rua, as torres iluminadas de espuma do mar que duravam um segundo. Para Jäcki aquela viagem começara com toda a cara de uma mancada e tanto. Junto de Irma ele parecia a si mesmo como o japonês no filme em que o papa deverá ser assassinado.

Eles participavam de uma viagem organizada.

A Ah, o país distante, a Orplid1, a Baudelaire.

Água condensada na parte externa dos potinhos de sorvete.

Jäcki com certeza não escreveria um romance sobre isso. Ele também não queria descobrir o que quer que fosse, como em Portugal, desmascarar, ele não queria levar a língua até si mesmo no Brasil.

Jäcki tinha algum dinheiro sobrando. Pela primeira vez na vida. Ele escrevera um best-seller. Sobre um boteco, no qual os beatniks alemães se encontravam há dez anos. Os vagabundos que burlavam a norma.

O boteco já fechara há tempo.

Nostalgia, como se diz hoje em dia.

E Jäcki tentara escrever um romance volumoso a partir de visitas, palavras, biografias, metáforas, fantasias.

Algo esforçado, solitário, experimental.

Ele teria ficado contente se tivesse conseguido abater ainda uma parte honrosa de seu adiantamento pago pela Rowohlt com a venda de exemplares – quer dizer, 7 mil exemplares, digamos a 2,50 o exemplar, portanto exatamente 20 mil marcos alemães; ele teria ganho 12 X 800 X 3.

Mas ainda lhe sobrava alguma coisa.

Esteve meio ano na lista de best-sellers da revista Spiegel. Inclusive um crítico como Marcel Reich-Ranicki se atreveu a um elogio meio forçado do romance de Jäcki, ao tentar fazê-lo sangrar com milhares de setas, como de praxe, dizendo que ele não respeitava a ortografia, que a gramática era defeituosa, para ao fim, ainda assim, chegar a um bramido positivo bem típico na intelectualidade alemã.

Raddatz telefonou a Jens para saber quando seria publicada sua defesa do livro, e Jens escreveu uma réplica a Reich-Ranicki na qual louvava o romance de Jäcki, o romance daquele que ainda há alguns anos ele quisera assassinar como Manfred Hausmann, como romance de um novo tempo, no tempo, como nova ciência do homem, louvando de quebra o filólogo antigo, os conhecimentos de Ésquilo de Jäcki – mas isso já foi de Dulu.

Raddatz mentiu ou falou a verdade quando telefonou a Jäcki dizendo que o professor Jens alguns dias depois, e só por causa daquilo que acontecera, havia feito uma ligação e reivindicado uma cátedra para Reich-Ranicki junto a Rowohlt.

O romance de Jäcki foi publicado em maio de 1968.

E ele por certo era revolucionário, a seu modo.

Anarco.

Gay.

Um hino à matéria.

Embora também não refutasse incondicionalmente as convenções revolucionárias tradicionais. O livro de Jäcki não chegou a desencadear a revolução anárquica.

Seu impulso revolucionário por certo foi ignorado, graças a Deus, em favor do best-seller.

O livro complicado, muitas vezes quase ilegível, soçobrou ao sabor da onda.

Todo best-seller, seja a Bíblia, Ilíada, ou Joyce teve algo de original e ancestral, algo Helga Feddersen e Inge Meysel. E isso faltava à “Palette".

Ela não ia ao encontro de ninguém. Mas o incompreensível poderia ser mal compreendido no âmbito de alguma modas literárias e sociológicas conforme aliás acontece com a maior parte das obras vanguardistas.

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