A vida, mesmo amarga, é sorte e privilégio

Cena de Um Violinista no Telhado (1971), dirigido por Norman Jewison.

Friedrich Gorenstein foi, além de autor de Salmo — romance-meditação sobre os quatro flagelos do senhor, roteirista de Andrei Tarkovski, assinando os roteiros dos filmes Solaris e Andrei Rublióv. Judeu russo nascido em Kíev, ativo na discussão sobre o antissemitismo na Rússia, construiu em Salmo (1975) uma das tramas mais complexas e originais sobre a questão judaica (entre outros assuntos), em ficção original alternada com trechos do Antigo Testamento: Dã, a Áspide, o Antricristo, enviado pelos céus à URSS do início do século XX, percorre seu caminho na terra visto pelos locais como um judeu forasteiro.

A fome de 1930, o nazismo e a Segunda Guerra Mundial, a evacuação, o pós-guerra e a censura stalinista de 1950 são pano de fundo histórico enquanto os quatro flagelos divinos (fome, guerra, luxúria e doença) acometem o país, enviados pelos céus através do Anticristo — aqui, filho de Deus e irmão de Cristo. As profecias, retiradas da Bíblia, se encaixam perfeitamente nos acontecimentos concretos; Gorenstein não recria em Salmo episódios bíblicos, mas usa-os para ilustrar a vida na União Soviética.

Cada capítulo, dedicado a um flagelo, é aberto por um preâmbulo filosófico-religioso seguido de uma parábola. E é a partir dela que se desenrola a ficção, através de um enredo (quase cinematográfico) centrado em uma personagem que dá vazão à punição divina — enquanto o Anticristo cruza seu caminho. Compreendido pelos ideólogos cristãos como um inimigo de Cristo — que veio para abençoar, salvar e perdoar os pecadores — o Anticristo de Gorenstein veio para amaldiçoá-los (os pecadores), salvando suas vítimas. Ou seja, em Salmo, Cristo e Anticristo, apesar das diferenças, se completam: são irmãos, e não inimigos.

Na primeira parábola, «Parábola do irmão perdido», surgem os flagelos da fome e luxúria. É descrita a vida de uma mendiga de nome Maria, da vila de Chagaro-Petróvskoie, em 1933, durante a coletivização. Nesse momento, implantou-se na URSS o golodomor (em tradução literal, “morte pela fome”), época em que produtos agrícolas eram expropriados por grupos especiais (Prodotriády), deixando os camponeses em situação precária.

Na «Parábola dos suplícios dos ímpios», segunda, vem a punição da espada. É narrada a história de outra menina, Ánnuchka, e se passa em 1940 em Rjév, norte da Rússia. A guerra alcança Ánnuchka, e, no lugar do poder soviético, vem o alemão. Com a mãe e o irmão, Ánnuchka foge para uma pequena aldeia, onde todos adoecem — e a menina vai parar num orfanato durante a época de evacuação.

Os acontecimentos da terceira, a «Parábola do adultério», são protagonizados pela família Kopóssov, da cidade de Bor, às margens do Volga, particularmente a mãe, Vera. Era 1948, no pós-guerra, época de esperança na URSS. Por desígnio divino, Vera se vê apaixonada pelo Anticristo — que, por meio da trama de Vera, foi atingido pelo terceiro flagelo: o animal selvagem, a luxúria.

Na quarta, «A parábola da doença do espírito», gira em torno de Aleksei Ívolguin, judeu de sobrenome original Katz, comprado por seu pai de um comissário de polícia. Ívolguin vivia amedrontado, temia tudo e todos, por ser judeu e trabahar como crítico literário. Em 1952, ano da perseguição dos cosmopolitas (intelectuais judeus acusados de não serem leais ao poder soviético) e dos criminosos de jalecos brancos (médicos judeus acusados de matarem os líderes da nação, aludido também em Vida e destino, de Vassíli Grossman), Ívolguin espera ser preso a qualquer momento.

A contínua angústia humana, mais ainda do que instabilidade e dificuldade de sobrevivência, une as quatro parábolas. Ao Anticristo, enviado por Deus como testemunha das atrocidades praticadas pelos pecadores e responsável pela aplicação dos quatro flagelos, resta apenas contornar as histórias enquanto segue seu caminho na Rússia antissemita de 1930 a 1970. Intocável às investidas humanas, Dã permanece são (pelo menos fisicamente) frente ao ódio que lhe é canalizado: não por ser quem ele é, o Anticristo, mas por ser um judeu.

Pávlik, um bêbado da cidade de Rjév, com quem topou na rua na segunda parábola, ilustra parte da situação da questão judaica na Rússia:


«(...) quando Dã passou pelo homem, este o fitou na face como se o conhecesse.

Credo, um jid, que ódio... Jid...

O homem russo simples não pronuncia essa palavra a todo momento,mas apenas em casos extremos. Costuma pronunciar jid com gosto, como se mordesse uma maçã suculenta e crocante. A palavra judeu também é útil para limpar a garganta que ficou rouca de ódio ou exprimiu muita alegria. Mesmo assim, não se pode compará-la à jid... Não há na palavra judeu aquele quê de malícia, de originalidade, que distingue um cálice de vodca de uma caneca de kvás.»


Ou em sua triste constatação ao se deparar, ainda na «Parábola dos suplícios dos ímpios», com Sulamita, menina judia identificada pelos oficiais alemães na praça da vila de Brussiány, em Rjév, morta e jogada numa vala. Assistiu à cena do cadáver perto de Minsk, ao lado de um judeu que lamentava sua incompreendida origem:


«(...) ele se viu ao lado de um sujeito da tribo de Efraim, pois Dã sabia a que tribos as pessoas pertenciam, mesmo que elas mesmas ignorassem. E esse homem, sábio e filósofo, caminhando para o túmulo, disse com pudor e afobação:

Nosso povo deveria ter ido embora há muito tempo; somos como uma visita abusada que ficou tempo demasiado na casa dos outros povos e agora é posta para fora à força e com humilhação... Nós, judeus, somos um povo ruim e eu sinto nojo de mim mesmo...

E Dã, a Áspide, o Anticristo, disse:

Quem está nos expulsando e de onde? Por acaso o Senhor nos expulsa do Éden? Por acaso os santos anjos nos expulsam do céu? Não, nós, pecadores, somos expulsos por pecadores decaídos de um mundo decaído... Olhemos em volta. O adultério não seria um pecado deste mundo? E a traição? A filosofia indecente? A reza dissimulada? Em disputas entre irmãos, matamos nossos próprios profetas, de Jeremias a Jesus, mas será que isso é algo raro neste mundo? Quantos libelos de sangue, quantas lendas maldosas podem ser criadas sobre outras nações que destruíram seus próprios justos em disputas entre irmãos? E que culpa em particular nos deve ser imposta? Por que antes de sermos colocados porta afora deste mundo decaído, mas habitável, eles nos arrancam tudo e ficam com o que temos de melhor? Quando estivermos em outro mundo, iremos adquirir novamente um destino histórico e outros bens


Dã, a Áspide, o Anticristo, um judeu assim como seu irmão Cristo, passou pela terra castigando os pecadores durante parte do século passado entre falantes da língua russa. Salmo — romance-meditação sobre os quatro flagelos do senhor é, antes de tudo, uma ficção construída, de maneira minuciosa e bem amarrada, em cima da história de dificuldades passadas pelo povo soviético, trazendo à tona questões ainda mais profundas do que a própria precariedade palpavelmente vivida.

O sujeito pertencente à tribo de Efraim*, assim como Aleksei Ívolguin na quarta parábola do livro, «A parábola da doença do espirito», sente vergonha e medo de sua identidade judaica ante os eslavos. O ódio nacional aos judeus gerou inclusive canções folclóricas satíricas, as tchastuchkas, que incentivavam pogroms na Rússia desde o final do século XIX até o início do século XX («Bata nos jides, salve a Rússia»). Mas é justamente essa rejeição à própria identidade que Gorenstein castiga, no romance que – como a maioria dos escritos do autor –, encerra, no fim, uma nota positiva: «Qualquer vida e qualquer destino, mesmo uma vida amarga e um destino cruel, quando passa, deve se constituir num salmo. Louvar ao Senhor por ela ter acontecido, diferentemente das vidas que não nasceram e dos destinos que não aconteceram. Qualquer vida, mesmo amarga, é uma sorte e um privilégio...».


Os editores.


* Pela tradição bíblica, o antigo Israel era estruturado por uma confederação de dozes tribos, dos doze filhos de Jacó: Rúben, Simeão, Levi, Judá, Dã, Neftali, Gad, Aser, Issacar, Zabulon, José e Benjamim. Efraim e Manassés, filhos de José, deram origem a duas tribos, no lugar das de Levi e de José.

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