A linguagem e seu voo

No dia 7 de setembro deste ano foi inaugurada a 32ª Bienal de Arte de São Paulo, sob o título Incerteza viva. Em tempos de impactos ambientais, instabilidade econômica e política, distribuição injusta de recursos naturais e de migração global, talvez seja preciso desvincular a incerteza do medo, diz o release oficial sobre o nome dado à exposição.

A tentativa de remediar a experiência — no sentido de normalizá-la, como a vacina da verdade descrita por Roland Barthes — vem para que o desconforto geral se torne um pouco mais palatável e a incerteza com a qual precisamos conviver possa nos apresentar mais soluções do que problemas. Todavia, embora a incerteza esteja atrelada à crise, ainda segundo o release, não é equivalente a ela. Incerteza é, sobretudo, uma condição psicológica ligada aos processos individuais ou coletivos de tomada de decisão, descrevendo o entendimento e o não entendimento de problemas concretos. Compreeender a incerteza viva como parte de nossos dias é ter consciência de que o ambiente em que vivemos é por ela regido.

Em retrospectiva, a 31ª Bienal, Como (...) coisas que não existem (2014) baseou-se sobretudo no conceito de transformação: a imaginação é vista como uma ferramenta para ir além da nossa situação atual. É uma invocação poética do potencial da arte e de sua capacidade de agir e intervir. Foi uma fase de transição entre as bienais que vieram antes e depois.

A chegada à segunda parte do fio condutor foi, portanto, a 30ª Bienal (2012). Da incerteza antecedeu a transformação, que antecedeu a iminência. A linha reta até a situação dos dias de hoje já vinha em germe, em premência. Analisar uma Bienal como a de 2012 em retrospecto pode entrar na proposta do tema tanto quanto a imersão de quando a mostra fazia parte do momento presente: o que a vida viria a se tornar era a pergunta central da exposição.

Falar (as) imagens foi um leitmotiv sobre o qual elaboraram o projeto curatorial — chamando-o, inclusive, de Projeto Filóstrato. A publicação do livro do autor da segunda sofística com suas 65 imagens descritas, feita pela Hedra no mesmo ano de inauguração do evento, impunha-se por si mesma. Uma seleção desses quadros foi traduzido do grego por Rosangela Amato, sobre os quais filólogos e pensadores ainda discutem se existiram ou se foram simplesmente o pretexto ideal para a invenção de um novo gênero literário.

Junto ao livro Amores e outras imagens, de Filóstrato, o Velho, estão os outros quatro títulos que fazem parte da Coleção Bienal. As leituras e referências teóricas que embasaram o pensamento de A iminência das poéticas estão compiladas nesta coleção de livros de pequeno formato, com textos fundamentais para a curadoria e até então inéditos em língua portuguesa. Fazem parte, além de Amores e outras imagens, Os vínculos, de Giordano Bruno; O primeiro tratado dedicado a Frontão (que abre a Réthorique spéculative), de Pascal Quignard; Ninfas, de Giorgio Agamben e A arte de birlibirloque e A decadência do analfabetismo, de José Bergamín.

É uma certeza factual que as imagens são mudas, e que aqueles que se dedicam a produzi-las fazem — como proclamava Poussin — ofício de coisas mudas. Mas o fato de que elas não cessam de produzir glosas e palavras, textos e polêmicas, e sejam objeto de um incessante mister de descrições, no qual chegam a ser o que estão destinadas a ser para nós, confirma a complexa relação entre o verbo e a imagem.

A iminência das poéticas, tentou seguir ao pé da letra o programa contido em um fragmento de Frontão: não nos identificarmos com a linguagem em flor (os sistemas), nem com a linguagem silvestre (vernácula), mas com a linguagem in germine (germinativa), com a linguagem enquanto está vindo, enquanto é, ainda, iminente.

Finalmente, se falar (as) imagens é um exercício sempre inconcluso, a razão talvez esteja na densidade natural do mundo e na resistência antifilosófica da voz: Frontão envia uma carta a Marco Aurélio na véspera de seu primeiro discurso diante do senado de Roma, no belo texto de Quignard. Não confunda nunca — repreende-o — a linguagem com seu voo.


Vá à fonte da filosofia e não à filosofia, repete Frontão a Marco Aurélio. Nunca perca na filosofia o ritmo, a voz que nela fala e o psophos remanescente e emotivo que ela conserva. Rechace suas dissertações deformadas, contorcidas (sermones gibberosos, retortos). Pela escolha das palavras, pela novidade do antigo que está no fundo da alma, do arcaico que está no fundo do impulso, abandonando-te à investigação própria às imagens, eu te fiz penetrar não apenas no poder (potestas), mas na potência (potentia) do dizer (in dicendo). Não podes desprezar a linguagem humana. Podes apenas não amá-la (Possis sane non amare). Podes não amá-la como Crasso o riso, como Crasso a luz do dia, como Crasso os campos. Mas o ódio à linguagem nada significa para o homem que o enuncia. Que um humano odeie a linguagem, é como a colheita que odiasse o flanco da colina. [O primeiro tratado dedicado a Frontão | Pascal Quignard]


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